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Archive for the ‘Suspense’ Category

O Falcão Maltês – ***** de *****

Assisti a “O Falcão Maltês” pela primeira vez no ano de 2.000, quando tinha apenas 16 anos, e mesmo não sendo um grande fã de filmes antigos naquela época, havia adorado o filme de John Huston. Não sei se fora necessariamente a trama complexa e bem bolada que me chamou atenção ou o personagem de Humphrey Bogart, com um charme e um carisma de fazer inveja a qualquer James Bond. Passados nove anos decidi assistir a “Acossado” de Jean-Luc Godard e logo nos primeiros minutos de projeção virei fã incondicional do filme francês, onde um dos destaques principais fica com o protagonista Michel, claramente influenciado pelo Sam Spade de Bogart. Fiquei tanto com o filme de Godard quanto com o filme de Huston no cabeça e, nesta semana, pude matar tal ansiedade quando, surpreendentemente, encontrei o DVD de “O Falcão Maltês”. Não pensei duas vezes, loquei o filme e trouxe para casa, onde poderia assisti-lo o quanto antes. O resultado é que continuo adorando a obra-prima mais influente do Cinema Noir.


Ficha Técnica:
Título Original: The Maltese Falcon
Gênero: Suspense
Tempo de Duração: 100 minutos
Ano de Lançamento (EUA):
1941
Direção: John Huston
Roteiro: John Huston, baseado em livro de Dashiell Hammett
Elenco: Humphrey Bogart (Sam Spade), Mary Astor (Brigid O’Shaughnessy), Gladys George (Iva Archer), Peter Lorre (Joel Cairo), Barton MacLane (Detetive Dundy), Lee Patrick (Effie Perine), Sydney Greenstreet (Kasper Gutman), Ward Bond (Detetive Tom Polhaus), Jerome Cowan (Miles Archer) e Elisha Cook Jr. (Wilmer Cook).


Sinopse: Um detetive particular (Humphrey Bogart) é procurado por uma mulher misteriosa (Mary Astor), que alega estar sendo ameaçada. Mas tanto o seu perseguidor quanto o homem encarregado de protegê-la aparecem mortos e tudo gira em torno de uma estátua de falcão de valor incalculável.


The Maltese Falcon – Trailer:


Crítica:

Quando falamos sobre “O Falcão Maltês” (conhecido também como “Relíquia Macabra”, que nada mais é do que um título marqueteiro e inconveniente) logo temos certeza de dois pontos extraordinários: o primeiro é que o filme trata-se de um dos dois mais importantes exemplares da era noir do Cinema (concorre ao posto de “mais importante” diretamente com o perfeito “Crepúsculo dos Deuses” de Billy Wilder) e o segundo é que a obra em questão trata-se de um dos mais admiráveis filmes da história da sétima Arte, falando em um contexto geral.

Tido pela grande maioria dos críticos e cinéfilos do mundo todo como a obra-prima máxima do consagrado cineasta John Huston (alguns ainda afirmam ser “O Tesouro de Sierra Madre”, “Uma Aventura na África”. “Moulin Rouge (1952)” ou “O Homem Que Queria Ser Rei”, mas, ao menos desta vez, concordo com a opinião da maioria), o longa tem como maior atrativo a atuação de Humphrey Bogart, que transforma o seu Sam Spade em um dos personagens mais marcantes e inesquecíveis da história da Sétima Arte, seja pelo tom de voz inigualável empregado pelo ator (que também o fazia excelentemente bem no sensacional “Casablanca”), seja pelos inolvidáveis maneirismos utilizados pelo astro hollywoodiano.

Spade entra em cena através de uma clássica sequência onde, sentado atrás de uma mesa de escritório e vestindo um chapéu que quase lhe cobre os olhos por inteiro, enrola um cigarro e o fuma enquanto atende uma mulher formalmente trajada. A composição de Bogart é praticamente perfeita, seu personagem lhe cai tão bem quanto uma luva, e o ator consegue, com maestria, transformar o protagonista em um sujeito ainda mais cafajeste do que ele já é por si só. Longe de aparentar ser o típico herói de filmes deste gênero, Spade revela-se um sujeito moralmente incorreto e dotado de atitudes imprevisíveis (“___ Você é o homem mais imprevisível que já conheci.” ___ Menciona Brigid O’Shaughnessy em um determinado momento do filme), que não se vê capaz de esconder a sua ganância pelo dinheiro (nisso, o seu Spade lembra um pouco o seu Dobbs, só que em doses de ambição muito mais homeopáticas) e, não bastasse isso, tem um caso de amor com a esposa de seu sócio que, além de desprezar completamente, não demonstra a menor compaixão quando fica sabendo da morte deste.

As demais figuras que compõem o rol de personagens também seguem a linha do protagonista e, assim como na grande maioria das obras que constituem o subgênero film noir, são todos indivíduos de caráter duvidoso, variando desde a mocinha que se passa por garota meiga, mas na verdade é demasiadamente perigosa, ao vilão que se mostra capaz de sacrificar um grande amigo (que é tido como um filho para ele) a fim de conseguir um objeto extremamente ambicionado por si.

A trama também faz jus aos personagens que a integram e, mesmo aparentando ser um tanto o quanto previsível em alguns poucos momentos, é extremamente bem amarrada e suficientemente interessante e complexa para nos prender a atenção do início ao fim do longa, sem jamais se revelar fadigosa e/ou aborrecedora. Os diálogos, por sua vez, são ágeis, secos, ácidos, ríspidos e dinâmicos, e enriquecem ainda mais o roteiro que já se mostra excepcional se o analisarmos individualmente.

Longe de ser apenas um donairoso e excelente exemplar do gênero cinematográfico suspense-policial, “O Falcão Maltês” merece destaque mormente por ser um dos filmes que mais serviram de inspiração para formar, não somente a Hollywood, mas também o Cinema mundial o qual conhecemos hoje. Entre as películas e cineastas os quais podemos citar que foram direta ou indiretamente influenciados pela obra-prima máxima de John Huston (e leve em conta que este foi o primeiro filme por ele dirigido) estão: “Acossado” de Jean-Luc Godard, “Um Corpo Que Cai” de Alfred Hitchcock, “O Terceiro Homem” de Orson Welles e “Pacto de Sangue” de Billy Wilder. Em outras palavras: se é de seu interesse adquirir um estimável conhecimento em Cinema e, acima de tudo, em Cinema Noir, “O Falcão Maltês” torna-se um filme mais do que mister para tal.

Avaliação Final: 9,0 na escala de 10,0.

Um Corpo Que Cai – ***** de *****

Não gosto de dar nota 9,5 a qualquer filme que seja. Muitas vezes já dei notas exageradamente quebradas a muitas obras do Cinema, mas 9,5, sabe-se lá o porquê, nunca gostei de conferir a filme algum. Em “Um Corpo Que Cai” vi-me impossibilitado de manter esta tradição, pois sabia claramente que estava diante de um filme perfeito demais para receber uma nota 9,0 (avaliação que atribuo a produções excelentes). Entretanto, mesmo sendo uma obra praticamente completa e esmerada, “Um Corpo Que Cai” se revelou um longa metragem levemente falho quanto à ligeira previsibilidade contida em seu roteiro, uma vez que, com o passar do tempo, começamos a ter uma noção de como o filme irá se encerrar. De qualquer forma, o suspense é atormentador do início ao fim e nos deixa com um sentimento de curiosidade para lá de insuportável, conforme poderemos perceber mais abaixo, no texto do filme.

Ficha Técnica:
Título Original: Vertigo.
Gênero: Suspense.
Tempo de Duração: 128 minutos.
Ano de Lançamento: 1958.
País de Origem: Estados Unidos da América.
Direção: Alfred Hitchcock.
Roteiro: Samuel A. Taylor e Alec Coppel, baseado em livro de Pierre Boileau e Thomas Narcejac.
Elenco: James Stewart (John “Scottie” Ferguson), Kim Novak (Madeleine Elster), Barbara Bel Geddes (Marjorie “Midge” Wood), Tom Helmore (Gavin Elster), Raymond Bailey (Médico de John), Konstantin Shayne (Pop Leibel), Ellen Corby, Lee Patrick, Henry Jones e Alfred Hitchcock.

Sinopse: Em São Francisco, um detetive aposentado (James Stewart) que sofre de um terrível medo de alturas é encarregado de vigiar uma mulher (Kim Novak) com possíveis tendências suicidas, até que algo estranho acontece nesta missão.

Fonte Sinopse: Adoro Cinema.

Vertigo – Trailer:

Crítica:

Ao lado de “2001 – Uma Odisséia no Espaço” e “Apocalypse Now”, “Um Corpo Que Cai” figura facilmente no topo da lista dos filmes mais aterrorizantemente perturbadores a que já assisti. E quando menciono “perturbadores” não me refiro à capacidade deste filme fazer com que nos sintamos mal após o término de sua sessão, como é o que acontece no perfeito “Clube da Luta”, no excelente “Dogville” e no ótimo “Violência Gratuita”, mas sim à perfeição com a qual o mesmo nos passa uma incômoda e desesperadora sensação de que, até o desfecho do longa, iremos morrer (a sensação que o filme de Kubrick nos passa) ou ficarmos completamente alucinados (a sensação que o filme de Coppola nos passa).

A princípio, o longa soa simples e convencional. Não reparamos em nada demais no mesmo. O protagonista é um velho detetive que se encontra afastado da polícia devido a um trauma que contraiu em uma missão onde ficou pendurado no telhado de um prédio a uma altura considerável do chão. Seu nome é John Ferguson, vulgo Scottie. Ferguson recebe uma proposta de um antigo colega de faculdade, Gavin Elster, que pede para que ele vigie a sua esposa, Madeleine Elster, que vem agindo com demasiada estranheza ultimamente, praticamente “vivendo” a vida de uma mulher que cometera suicídio no passado.

Conforme a trama vai se desenrolando e alguns pontos vão sendo claramente explicados, nos vemos diante de uma estória que mostra três possíveis caminhos a serem percorridos, e por mais que muitos deles se mostrem significantemente inverossímeis, eles jamais podem ser alcunhados de desconexos ou implausíveis de serem absorvidos dentro do contexto da obra em questão. Hitchcock cria aqui um emaranhado de possibilidades que podem muito bem ser estendidas tanto a um suspense, quanto a um terror paranormal, fazendo com que a curiosidade que passa a crescer dentro de nós, espectadores, se torne forte o bastante para não conseguirmos aprisioná-la racionalmente no interior de nossos próprios corpos, chegando a ponto de quase perdermos a razão e sairmos gritando pelas ruas.

O filme trata de um caso paranormal? De um encosto espiritual que muda completamente a personalidade de uma pessoa? De uma personagem com uma mera inclinação suicida? De um homicídio armado? De um caso de loucura elevada à máxima potência? Difícil respondermos até a metade da projeção. E por mais que a trama soe levemente previsível durante alguns poucos momentos, não há como deixarmos de levantar todas estas questões e traçarmos mentalmente as várias hipóteses as quais o longa pode real e definitivamente nos levar.

Enquanto não chegamos a uma exata conclusão do caso, passamos a nos perturbar imensamente. O filme incomoda, atormenta, ganha vida, nos abraça e não nos larga jamais. Chegamos a ter medo de ficar o acompanhando diante da tela e, quando o desfecho enfim acontece e os créditos finais aparecem, o suspense ainda se mostra capaz de nos deixar enleados com o que acabamos de presenciar em seus atormentadores últimos segundos de projeção.

E não só o suspense em si se revela intenso o bastante para nos fazer fixar e grudar os olhos na tela. Conforme fora mencionado na quarta linha do parágrafo anterior, o mistério tem uma luz quando o filme praticamente chega a sua metade. Mas então qual seria a graça de continuarmos acompanhando a trama por mais uma hora, já que sabemos parcialmente o que havia ocorrido? Respondendo sucintamente: a graça está em notarmos o modo como a vida de Ferguson fica alterada após o ocorrido. Os roteiristas Samuel A. Taylor e Alec Coppel acertam em cheio ao fazer com que os espectadores tenham um ligeiro conhecimento do ocorrido durante a metade do filme, pois é a partir daí que podemos sentir na pele o drama do protagonista, que sabe muito menos do que nós mesmos sabemos.

Passamos a nos incomodar com o rumo que a vida de Ferguson vai tomando e nutrimos uma vontade moral de penetrar na tela e dizer ao detetive o que realmente aconteceu. Obviamente nos vemos impossibilitados de realizar tal façanha, o que acaba nos atormentando ainda mais. Acompanhamos então a rotina de um homem que passa a viver a beira da loucura, até que um determinado incidente muda tudo. E é justamente quando pensamos que Scottie deixará de atormentar tanto a si mesmo que passamos a testemunhar uma subtrama ainda mais transtornadora. Trata-se do doentio romance que o protagonista passa a ter com uma personagem que surge próxima do desfecho do filme, algo que se revela tão cativante quanto o mistério que havíamos presenciado há pouco tempo atrás e se firma competente o bastante para segurar a trama com o mesmo ritmo com o qual esta se iniciou.

Entretanto, por mais destaque que a excelente trama mereça, não posso deixar de citar também a direção de Alfred Hitchcock. Por mais que o meu desejo ultimamente seja o de, cada vez mais, reduzir os meus textos, torna-se impossível não alongar esta crítica um pouco mais para falar do grande gênio do suspense cinematográfico e, considerado por muitos (o que está longe de ser o meu caso, mas enfim…), do Cinema como um todo, superando até mesmo mestres do naipe de Stanley Kubrick, Orson Welles, Jean-Luc Godard e Jean Renoir.

Hitchcock sempre levou fama de ser extremamente inventivo e ousado e “Um Corpo Que Cai” talvez seja a maior prova disso. Foi através deste filme que, a fim de fazer com que o espectador senti-se na pele a acrofobia característica do protagonista, o diretor criou a técnica chamada de “zoom out”, que viria a ser empregada por Stanley Kubrick em clássicos absolutos como “2001 – Uma Odisséia no Espaço” e, principalmente, “Laranja Mecânica”.

Um simples diretor teria filmado o excelente James Stewart olhando para baixo e fingindo estar com um terrível atordoamento, mas Hitchcock o fez de um modo muito superior. Fez com que nós, espectadores, também partilhássemos da sensação vivenciada pelo protagonista. É como se “ganhássemos” o mesmo par de olhos utilizado por Scottie e começássemos a sentir a mesma vertigem que ele, o que só vem a fazer com que a trama toda soe ainda mais verossímil do que ela soaria nas mãos de um outro cineasta qualquer.

Não sei se “Um Corpo Que Cai” pode ser tida como a grande obra-prima da magistral carreira de Alfred Hitchcock. Talvez outras obras como “Janela Indiscreta”, “Psicose” e até mesmo “Rebecca – A Mulher Inesquecível” mereçam mais este título. Ou talvez não. Mas isso não importa. O importante é que “Um Corpo Que Cai” é um filme que deve obrigatoriamente fazer parte da lista de filmes assistidos por qualquer pessoa que se diga cinéfila.

Mais do que meramente recomendado, “Um Corpo Que Cai” é um filme obrigatório.

Avaliação Final: 9,5 na escala de 10,0.

Anjos & Demônios – *** de *****

Serei honesto e sucinto aqui: nunca li livro algum escrito por Dan Brown e nem ao menos assisti a “O Código da Vinci” (e posso dizer com certeza que não perdi nada com isso, muito pelo contrário. Perderia algo se deixasse, por exemplo, de ler um livro escrito por Schopenhauer ou de assistir a um filme dirigido por Bresson) e nem me interessa faze-los durante algum dos longos dias que ainda me restam de vida. O motivo? Simples, várias das pessoas mais estúpidas, alienadas e descartáveis que conheci em toda a minha existência são fãs inveteradas de Dan Brown e, consequentemente, do filme que teve a sua origem baseada no livro que lhe concebeu toda essa fama superestimada (e é óbvio que não menciono isso generalizando ninguém, até mesmo porque, conheço também muitas pessoas inteligentes e notáveis que também são fãs incondicionais de Dan Brown). Levando tudo isso em conta, por que eu iria perder o meu precioso tempo com tamanha bobagem, se posso dedicá-lo à filosofia alemã, ou seja, à filosofia responsável pelo surgimento dos dois sistemas econômicos mais fortes já criados: o comunismo e o nazismo (que, sejamos francos, só não derrotaram o capitalismo pois foram poucos os países que tiveram a audácia de adota-los)? Mas no fim das contas eu até que considerei “Anjos & Demônios” um filme interessante, apesar de ser unicamente bom e nada mais.


Ficha Técnica:
Título Original: Angels & Demons.
Gênero: Suspense.
Tempo de Duração: 138 minutos.
Ano de Lançamento: 2009.
Site Oficial: http://www.anjosedemoniosofilme.com.br/
País de Origem: Estados Unidos da América.
Direção: Ron Howard.
Roteiro: David Koepp e Akiva Goldsman, baseado em livro de Dan Brown.
Elenco: Tom Hanks (Robert Langdon), Ewan McGregor (Camerlengo Patrick McKenna), Ayelet Zurer (Vittoria Vetra), Nikolaj Lie Kaas (Assassino), Stellan Skarsgard (Comandante Richter), Pierfrancesco Favino (Inspetor Olivetti), Armin Mueller-Stahl (Cardeal Strauss), Thure Lindhardt (Chartrand), David Pasquesi (Claudio Vincenzi), Cosimo Fusco (Padre Simeon), Victor Alfieri (Tenente Valenti), Franklin Amobi (Cardeal Lamasse), Curt Lowens (Cardeal Ebner), Bob Yerkes (Cardeal Guidera), Marc Fiorini (Cardeal Baggia), Howard Mungo (Cardeal Yoruba), Rance Howard (Cardeal Beck), Steve Franken (Cardeal Colbert), Gino Conforti (Cardeal Pugini), Elya Baskin (Cardeal Petrov), Carmen Argenziano (Silvano Bentivoglio) e Thomas Morris (Urs Weber).

Sinopse: O professor de simbologia Robert Langdon (Tom Hanks), depois de decifrar o código DaVinci, é chamado pelo Vaticano para investigar o misterioso desaparecimento de quatro cardeais. Agora, além de enfrentar a resistência da própria igreja em ajudá-lo nos detalhes de sua investigação, Langdon precisa decifrar charadas numa verdadeira corrida contra o tempo porque a sociedade secreta por trás do crime em andamento tem planos de explodir o Vaticano. (Roberto Cunha).

Fonte Sinopse: Adoro Cinema

Angels & Demons – Trailer:

Crítica:

Dan Brown é considerado um terrível engodo de acordo com a opinião de inúmeros críticos literários espalhados pelo mundo todo. Seus livros, segundo tais jornalistas, são dotados de muita criatividade e conseguem cumprir o objetivo de entreter o seu público alvo, mas suas estórias geralmente acabam dando origem a situações que beiram o absurdo. Isso sem contar, é claro, que as obras de sua autoria são escritas com uma incompetência estilística fora do comum, além de contarem com uma pobreza literária terrível. Pois conforme mencionei na pré-crítica deste filme, não li, e nem pretendo ler, qualquer um de seus livros que seja, mas se tomar por base este “Anjos & Demônios”, posso dizer que a descrição tecida pelos meus colegas de profissão da outra vertente artística encaixa-se perfeitamente nesta obra cinematográfica.

Criatividade é algo que não falta no filme “Anjos & Demônios”, muito pelo contrário, eu diria que até sobra. Sim, sobra, pois o roteiro, com o prévio perdão pela gíria que virá a ser empregada, “viaja na maionese”. Não, em momento algum “viajar na maionese” precisa ser necessariamente encarado como um defeito do longa, ao menos não desse longa em questão. A trama é, de fato, muito original, embora muitas vezes extrapole as margens do que tomamos por verossímil. A produção se mostra gritantemente artificial em alguns pontos, mas não há como não nos cativarmos com a mesma, nem que seja apenas para ver até quando o roteiro conseguirá sustentar-se com uma trama tão “viajada” (estou empregando gírias demais nesse texto, não?) quanto esta daqui.

Mas se por um lado a trama é “viajada” demais (leia-se (exclusivamente neste caso), criativa em excesso), por outro lado o diretor Ron Howard se perde visivelmente durante a condução da mesma. Além do cineasta raramente movimentar a sua câmera no decurso do filme, quando ele finalmente decide o fazer realiza um trabalho digno de lamentações, uma vez que perde completamente o foco daquilo que está tentando filmar (algo que deve ser execrado ao máximo neste caso, pois estamos diante de uma obra de suspense e o jogo de movimentação de câmeras pode, ou não (como acontece aqui), ser fundamental para conferir à trama a intensidade a qual a mesma precisa para funcionar corretamente).

E não só a mão pesada de Howard atrapalha no desenvolvimento do filme, como também a insegurança do diretor. Aliás, sua direção se revela tão insegura aqui que, na certeza que o próprio cineasta parece ter de que não está conseguindo criar um clima de suspense imprescindível à obra, acaba empregando uma trilha sonora para lá de maniqueísta para tal. A propósito, há muito tempo não assistia a uma tergiversação tão grande para que se fosse adotado tão evidentemente o emprego de cantos gregorianos a todo o instante. A trilha sonora de “Anjos & Demônios” acaba, infelizmente, revelando-se incomoda, artificial e inconveniente, e, francamente, se o “troféu” Framboesa de Ouro abrangesse tal quesito, o mais novo filme de Ron Howard deveria, obrigatoriamente, ser indicado à premiação.

As atuações também são patéticas. Tom Hanks encarna o seu personagem conferindo ao mesmo uma boa (e apenas boa) dose de carisma, mas faltou muita empolgação ao ator, que também encontra-se extremamente fora de forma (não tanto quanto este que vos escreve, mas encontra-se) para encarnar um personagem tão ativo quanto o Professor Langdon. Ayelet Zurer, por sua vez, revela-se como a grande fragilidade do elenco. A atriz encarna a sua personagem com uma inexpressividade que há muito tempo eu não via no Cinema. Além de insossa, Zurer aparenta ser extremamente antipática e não convence em momento algum (bem como a sua personagem). Ewan McGregor é o grande destaque dentre os atores. Utilizando um tom de voz altamente terno, o ator transfere ao seu personagem a sutileza que lhe é cogente e faz com que o

seu camerlengo realmente se mostre um típico padre católico. E não é culpa do ator se o roteiro opta por (e se você ainda não assistiu a esse filme, aconselho que pule para o próximo parágrafo e pare de ler este aqui imediatamente) transformar Patrick McKenna em um moço bom demais, fazendo com que todo o espectador que tenha algum conhecimento em literatura policial/suspense desconfie logo de cara que ele é o grande vilão da estória (a culpa é sempre dos que aparentam ser bonzinhos, um grande clichê do gênero), fazendo com que a mesma revele-se muito previsível.

E já que critiquei o modo como o roteiro desenvolve o personagem de Ewan McGregor no final do parágrafo acima, farei a mesma coisa com os demais personagens neste parágrafo. Não restam dúvidas de que a grande falha do filme reside no desenvolvimento de seus personagens. O Professor Langdon aparece aqui mais como uma releitura do excepcional e inesquecível Sherlock Holmes do que qualquer outra coisa. Seja pelo excesso de racionalidade que o personagem de Tom Hanks demonstra, seja pelo fato dele formar conclusões corretas rápido demais, a criação de Brown aparece aqui mais como uma cópia moderna da criação de Sir Arthur Conan Doyle. Fraco também é o desenvolvimento da Dra. Vetra. A princípio, ela aparece como uma importantíssima física e, repentinamente, desponta como uma grande conhecedora de história católica, sem mais, nem menos. Mas pior mesmo é o assassino do filme (cujo nome nem me lembro, e também não faço muita questão de me lembrar). Encarando as pessoas sempre com um olhar ameaçador e dando sorrisinhos a fim de provocar os seus oponentes, o personagem se revela extremamente inverossímil, principalmente em uma cena em que tem totais condições de matar o protagonista e, sabe-se lá o porquê, não o faz. E é claro que, para obter êxito em suas missões, o assassino mata todos que vê pela frente, salvo os protagonistas que sempre são poupados por ele.

Mas não pense que “Anjos & Demônios” é um filme ruim. De forma alguma, está muito longe disso. Além da trama ser deveras criativa (conforme já fora mencionado) e contar com uma abundância em detalhes (o filme dá um show de história católica e Dan Brown realmente mostra que sabe do que está tratando, seja quando o assunto se foca no Vaticano, seja quando se foca em seitas como a Illuminati), ela se revela suficientemente inteligente (apesar de excessivamente absurda em diversos momentos) e interessante para nos prender até o seu último segundo, sem nem ao menos nos preocuparmos com os 140 minutos de projeção. E não bastasse a estória contar com tantas qualidades como as mencionadas há pouco, ela ainda se revela bastante inteligente quando enfoca o eterno conflito entre ciência/religião, utilizando para tal dois grandes representantes da mesma: o recente LHC e o Vaticano.


Longe de poder ser rotulada como um amontoado de argumentos anti-católicos, assim como fora considerada a obra literária que lhe serviu de inspiração, “Anjos & Demônios” chega aos cinemas contando com uma trama inteligente, bem arquitetada e divertida, apesar de absurda, megalomaníaca e inverossímil em diversos pontos. Em outras palavras, o filme parece fazer questão de ratificar tudo aquilo que os críticos de literatura vem falando há anos sobre o trabalho do superestimado Dan Brown.

Avaliação Final: 6,0 na escala de 10,0.

Presságio – **** de *****

Gostaria de ter assistido a “Presságio” antes, mas o filme apenas estreou em minha cidade nesta última sexta (24 de abril de 2009), logo, pude ir conferi-lo somente no sábado (25 de abril de 2009). Fui ao cinema sem saber absolutamente nada sobre esta produção. Não fazia a mínima idéia da opinião da crítica internacional perante o mesmo, nem ao menos da crítica nacional e, acreditem, nem a sinopse do filme havia lido antes de o assistir. A única coisa que sabia é que tratava-se de uma produção catástrofe, gênero este que encontra-se demasiadamente batido e desgastado. Durante o primeiro ato, “Presságio” revelou-se, de fato, um típico blockbuster catástrofe feito para nerd ver (nada contra os intelectuais das ciências exatas, é claro). Tudo caminha insuportavelmente mal até que um avião “rasga” uma rodovia, e o resto o leitor poderá conferir no texto a seguir.

Ficha Técnica:
Título Original: Knowing
Gênero: Suspense.
Tempo de Duração: 122 minutos.
Ano de Lançamento: 2009.
Site Oficial: http://www.knowing-themovie.com/
País(es) de Origem: Estados Unidos da América e Austrália.
Direção: Alex Proyas.
Roteiro: Stuart Hazeldine, Ryne Douglas Pearson, Stiles White e Juliet Snowden, baseado em adaptação de Alex Proyas e em estória de Ryne Douglas Pearson.
Elenco: Nicolas Cage (John Koestler), Chandler Canterbury (Caleb Koestler), Rose Byrne (Diana Wayland), Lara Robinson (Lucinda Embry / Abby Wayland), Nadia Townsend (Grace Koestler), Alan Hopgood (Reverendo Koestler), Adrienne Pickering (Allison), Ben Mendelsohn (Phil Beckman), Joshua Long (Caleb Koestler – jovem), Danielle Carter (Srta. Taylor – 1959), Alethea McGrath (Srta. Taylor – 2009), David Lennie (Diretor Clark), Taara Donnellan (Mãe de Lucinda), Travis Waite (Pai de Lucinda) e D.G. Maloney (Estranho).

Sinopse: Em 1959, no interior dos Estados Unidos, um grupo de estudantes de uma escola primária realiza um desafio proposto pela professora local e desenham a concepção deles de como seria o mundo daqui a cinquenta anos. A introvertida aluna Lucinda Embry (Lara Robinson), no entanto, faz uma ilustração bem diferente das demais, sendo que, ao invés de figuras, a garota rabisca um monte de números que, aparentemente, soam desconexos. Passam-se cinquenta anos e o documento de autoria de Lucinda acaba indo parar nas mãos de Caleb Koestler (Chandler Canterbury). O pai do garoto, John Koestler (Nicolas Cage), um astrofísico extremamente dedicado à profissão, vê o desenho que agora pertence ao filho e decide estudá-lo. John infere que aquele pedaço de papel rabiscado é, na realidade, um presságio de todos os grandes acidentes pelos quais a humanidade irá passar, sendo que um deles em especial, prevê a destruição de toda a raça humana.

Knowing – Trailer:

Crítica:

Em 2001, pouco após aos atentados terroristas do histórico 11 de setembro, vários críticos de Cinema do mundo inteiro, incluindo o nosso Rubens Ewald Filho, passaram a ser questionados sobre o rumo que a sétima Arte tomaria a partir de então, uma vez que os Estados Unidos, nação esta que muitos julgavam ser altamente invulnerável a ataques de tal natureza, haviam demonstrado total incapacidade ao lidar com aquela situação. O que aconteceria então com os personagens que protagonizavam os filmes-catástrofes e, sozinhos, ou com pouquíssimo auxílio, acabavam salvando a humanidade inteira? Concluiu-se que o Cinema iria sair daqueles eixos fantasiosos e passar a encarar a Arte de um modo bem mais realista e verossímil, admitindo que a Terra do Tio Sam é tão vulnerável quanto qualquer outro país do mundo. “Presságio” é uma obra cinematográfica que serve de exemplo para tal e vem ratificar esta conclusão.

Antes de me estender à questão abordada no parágrafo supra, comentemos sobre o longa em si. Juro que quando este teve o seu início, imaginei estar assistindo ao filme errado. Deduzi que estava diante de uma inesperada continuação da pavorosa série cinematográfica de horror alcunhada de “O Chamado”. O motivo? Logo na primeira tomada do filme de Proyas somos apresentados a uma garota sinistra e sombria que passa todos os seus momentos em cena com os olhos arregalados e aparenta estar assustada a todo o instante. Lembrou-se da Samara, do ridículo filme de terror produzido no ano de 2002 e estrelado por Naomi Watts? Pois é, e tal recordação não é concretizada sem grandes embasamentos.

O filme se desenvolve um pouco mais, tanto do ponto de vista diegético quanto do ponto de vista temporal. Passam-se cinquenta anos e somos apresentados ao astrofísico John Koestler. Sabem quem é que o interpreta aqui? Um doce para quem acertar. Pois é, Nicolas Cage. Mais uma vez Cage encarna um nerd sabichão que mais parece uma enciclopédia astrofísica do que uma pessoa comum. Aí o leitor me pergunta: “___ Ah, mas o roteiro cria situações que o desenvolvam de uma forma mais humana, não?”. Sim, o roteiro, de fato, tenta humaniza-lo, mas sabe como o faz? Apelando aos dramas familiares mais clichês o possível para tal.

John era casado, perdeu a esposa, seu relacionamento com o único filho (que é um jovem semi-nerd que, durante alguns momentos, parece mais uma cópia xerografada do próprio pai do que qualquer outra coisa) é muito afetado porque, em virtude de sua incansável dedicação ao trabalho, não consegue dar a devida atenção ao garoto, suprindo assim a falta que a sua progenitora lhe faz. A partir daí, tudo o que vemos então é um Nicolas Cage que adota medidas clichês para representar o seu personagem, tais como: suspirar a todo o instante com a finalidade de ilustrar a melancolia pela qual passa ao notar o afastamento emocional (e, de certa forma, físico) existente entre ele e o seu sucessor.

Durante mais de quarenta e cinco minutos o filme se estende desnecessariamente nos delineando este drama familiar mais do que batido pelas produções deste gênero e juro que, enquanto estava sentado na poltrona do cinema, escrevendo em meu bloco de anotações, cheguei a rabiscar: “P*** filme chato da p****! Por que essa m**** dessa sessão não acaba logo?”. E, ironicamente, foi só terminar de grafar tais palavras que, inesperadamente, me vejo dentro de um desastre aéreo que mata oitenta e uma pessoas. Além do espetáculo conferido pelos excelentes efeitos visuais e sonoros, o plano sequência nos choca e nos assusta em face de sua verossimilhança, sendo que passamos a nos sentir praticamente dentro desta cena.

A partir de então arregalei os olhos, a trama revelou-se assustadora e curiosa. O protagonista tem um pedaço de papel na mão repleto de números que passam a lhe indicar quando e onde ocorrerá o próximo acidente de tal proporção. Ele começa então a investigar o caso laboriosamente. Seres estranhos, trajados de terno preto (outro grave estereotipo do filme), entram em cena e nos fazem formular diversas questões. Não sabemos ao certo o que eles querem com o filho de John, Caleb Koestler (Chandler Canterbury). Será que eles almejam matar o garoto? Será que almejam utiliza-lo em alguma conspiração contra a humanidade? Será que almejam protege-lo de algum mal que está por vir? Enfim, nada ficamos sabendo até o final da trama e tais questionamentos passam a nos perturbar a ponto de nos fazer roer as unhas de tensão.

Como acabará esta estória? Será que haverá um desastre causado por alienígenas que destruirá a humanidade? Será que estamos diante de um desastre ambiental que destruirá o planeta inteiro? Ou quem sabe estamos diante de uma batalha espiritual entre o Céu e o Inferno? Seria Caleb um personagem chave desta batalha (algo parecido com o ótimo “Constantine” e os fracos “Stigmata” e “Filha da Luz”)? Enfim, não sabemos ao certo com o que iremos nos deparar, e isso faz com que a tensão que os personagens passam a sentir, seja transportada diretamente até nós.

Aliás, tensão e suspense é o que não falta neste “Presságio”, principalmente graças à eficiente direção de Alex Proyas. Se por um lado o cineasta não realiza nenhum movimento com a câmera realmente satisfatório, ou nem ao menos se importa em posicioná-la de modo a criar ângulos verdadeiramente excepcionais, por outro lado o diretor se mostra um mestre em conferir terror aos seus espectadores. Repare no modo tenso como ele filma o supracitado plano-sequência do acidente aéreo, ou o cuidado que tem ao mostrar, da janela do quarto de Caleb, uma floresta em chamas, dando amostras do que poderá vir pela frente.

O filme fluia muito bem desde o início de seu segundo ato até então, eis que entra em cena duas pessoas em especial: Diana Wayland (Rose Byrne) e sua filha Abby Wayland (Lara Robinson). Foi neste momento que pensei: “pronto, o roteiro cometerá a asneira de proporcionar a John e a Caleb dois pares românticos.”. Felizmente, estava errado, e vocês nem imaginam o quão gosto de estar errado nestes casos em específico. “Presságio”, conforme havia citado no primeiro parágrafo desta crítica, é um filme pós 11 de setembro e que encarna todo o sentimento pessimista pelo qual os Estados Unidos estão passando neste atual momento. Logo, é de se esperar que John, Caleb, Diana e Abby sofram um desfecho bem diferente do que estamos acostumados a testemunhar nos blockbusters hollywoodianos (apesar de não ser algo tão trágico quanto o inesperado desfecho do ótimo “O Nevoeiro”). Aliás, o filme todo, apesar de conter bastantes clichês em seu roteiro, nos proporciona vários aspectos bem diferentes do que estamos acostumados a assistir ultimamente, e isso pode ser notado também nos motivos que poderão resultar no tão esperado desastre final (ao menos, eu nunca vi o cinema estadunidense abordar algo tão parecido).

Estranho, no entanto, é constatarmos que, mesmo com tantas qualidades visíveis, o grande trunfo de “Presságio” resida, de fato, em uma única frase. Pois é, em uma única frase, o filme consegue obter o seu atestado de qualidade. Trata-se da singela cena em que o protagonista pranteia: “___ O Mundo está para acabar e eu nada posso fazer para evitar isso!”. Com estas reles palavras, o personagem de Nicolas Cage ilustra todo o pessimismo e o temor estadunidense ao se ver incapaz de lidar com uma catástrofe ainda maior do que o próprio 11 de Setembro. Presenciamos aqui então a velação definitiva dos grandes heróis cinematográficos que salvam o mundo sozinhos. É a concretização de uma nova era que se assume cada vez mais vulnerável aos possíveis desastres que venham a ocorrer. É a desmistificação de porcarias comerciais à lá “Independency Day”, “Armagedon”, “Godzilla”, entre outras produções fajutas.

Apesar do excessivo número de clichês e personagens caricatos empregados durante o seu primeiro ato, “Presságio” revela-se, ironicamente, um instigante sopro de originalidade que parece remover cada vez mais a cortina de hipocrisia existente em Hollywood, destruindo de uma vez por todas a máscara vestida pelos pseudo-grandes heróis dos filmes-catástrofes, relegando-os a uma incapacidade de ação perturbadora.

É o retorno do bom, e verdadeiro, cinema-catástrofe, que dá as mãos a Nicolas Cage e o trás de volta à excelente atuação (apesar de seu primeiro ato ridículo, o ator encarna seu personagem com maestria na metade e no final da trama).

Obs.: Genial a idéia dos coelhos, já que, simbologicamente, eles representam a reprodução na natureza.

Obs. 2: Quem assistir a “Presságio” saberá o que estou desejando dizer na observação supra.

Obs. 3: Por motivos de coerência, optei retificar o último parágrafo, que antes encontrava-se assim: “Presságio” revela-se, ironicamente, um instigante sopro de originalidade, apesar do excessivo número de clichês e personagens caricatos empregados durante o seu primeiro ato…”, para “Apesar do excessivo número de clichês e personagens caricatos empregados durante o seu primeiro ato, “Presságio” revela-se, ironicamente, um instigante sopro de originalidade que parece remover cada vez mais a cortina de hipocrisia existente em Hollywood, destruindo de uma vez por todas a máscara vestida pelos pseudo-grandes heróis dos filmes-catástrofes, relegando-os a uma incapacidade de ação perturbadora.”

Avaliação Final: 8,0 na escala de 10,0.

Presságio – **** de *****

Gostaria de ter assistido a “Presságio” antes, mas o filme apenas estreou em minha cidade nesta última sexta (24 de abril de 2009), logo, pude ir conferi-lo somente no sábado (25 de abril de 2009). Fui ao cinema sem saber absolutamente nada sobre esta produção. Não fazia a mínima idéia da opinião da crítica internacional perante o mesmo, nem ao menos da crítica nacional e, acreditem, nem a sinopse do filme havia lido antes de o assistir. A única coisa que sabia é que tratava-se de uma produção catástrofe, gênero este que encontra-se demasiadamente batido e desgastado. Durante o primeiro ato, “Presságio” revelou-se, de fato, um típico blockbuster catástrofe feito para nerd ver (nada contra os intelectuais das ciências exatas, é claro). Tudo caminha insuportavelmente mal até que um avião “rasga” uma rodovia, e o resto o leitor poderá conferir no texto a seguir.

Ficha Técnica:
Título Original: Knowing
Gênero: Suspense.
Tempo de Duração: 122 minutos.
Ano de Lançamento: 2009.
Site Oficial: http://www.knowing-themovie.com/
País(es) de Origem: Estados Unidos da América e Austrália.
Direção: Alex Proyas.
Roteiro: Stuart Hazeldine, Ryne Douglas Pearson, Stiles White e Juliet Snowden, baseado em adaptação de Alex Proyas e em estória de Ryne Douglas Pearson.
Elenco: Nicolas Cage (John Koestler), Chandler Canterbury (Caleb Koestler), Rose Byrne (Diana Wayland), Lara Robinson (Lucinda Embry / Abby Wayland), Nadia Townsend (Grace Koestler), Alan Hopgood (Reverendo Koestler), Adrienne Pickering (Allison), Ben Mendelsohn (Phil Beckman), Joshua Long (Caleb Koestler – jovem), Danielle Carter (Srta. Taylor – 1959), Alethea McGrath (Srta. Taylor – 2009), David Lennie (Diretor Clark), Taara Donnellan (Mãe de Lucinda), Travis Waite (Pai de Lucinda) e D.G. Maloney (Estranho).

Sinopse: Em 1959, no interior dos Estados Unidos, um grupo de estudantes de uma escola primária realiza um desafio proposto pela professora local e desenham a concepção deles de como seria o mundo daqui a cinquenta anos. A introvertida aluna Lucinda Embry (Lara Robinson), no entanto, faz uma ilustração bem diferente das demais, sendo que, ao invés de figuras, a garota rabisca um monte de números que, aparentemente, soam desconexos. Passam-se cinquenta anos e o documento de autoria de Lucinda acaba indo parar nas mãos de Caleb Koestler (Chandler Canterbury). O pai do garoto, John Koestler (Nicolas Cage), um astrofísico extremamente dedicado à profissão, vê o desenho que agora pertence ao filho e decide estudá-lo. John infere que aquele pedaço de papel rabiscado é, na realidade, um presságio de todos os grandes acidentes pelos quais a humanidade irá passar, sendo que um deles em especial, prevê a destruição de toda a raça humana.

Knowing – Trailer:

Crítica:

Em 2001, pouco após aos atentados terroristas do histórico 11 de setembro, vários críticos de Cinema do mundo inteiro, incluindo o nosso Rubens Ewald Filho, passaram a ser questionados sobre o rumo que a sétima Arte tomaria a partir de então, uma vez que os Estados Unidos, nação esta que muitos julgavam ser altamente invulnerável a ataques de tal natureza, haviam demonstrado total incapacidade ao lidar com aquela situação. O que aconteceria então com os personagens que protagonizavam os filmes-catástrofes e, sozinhos, ou com pouquíssimo auxílio, acabavam salvando a humanidade inteira? Concluiu-se que o Cinema iria sair daqueles eixos fantasiosos e passar a encarar a Arte de um modo bem mais realista e verossímil, admitindo que a Terra do Tio Sam é tão vulnerável quanto qualquer outro país do mundo. “Presságio” é uma obra cinematográfica que serve de exemplo para tal e vem ratificar esta conclusão.

Antes de me estender à questão abordada no parágrafo supra, comentemos sobre o longa em si. Juro que quando este teve o seu início, imaginei estar assistindo ao filme errado. Deduzi que estava diante de uma inesperada continuação da pavorosa série cinematográfica de horror alcunhada de “O Chamado”. O motivo? Logo na primeira tomada do filme de Proyas somos apresentados a uma garota sinistra e sombria que passa todos os seus momentos em cena com os olhos arregalados e aparenta estar assustada a todo o instante. Lembrou-se da Samara, do ridículo filme de terror produzido no ano de 2002 e estrelado por Naomi Watts? Pois é, e tal recordação não é concretizada sem grandes embasamentos.

O filme se desenvolve um pouco mais, tanto do ponto de vista diegético quanto do ponto de vista temporal. Passam-se cinquenta anos e somos apresentados ao astrofísico John Koestler. Sabem quem é que o interpreta aqui? Um doce para quem acertar. Pois é, Nicolas Cage. Mais uma vez Cage encarna um nerd sabichão que mais parece uma enciclopédia astrofísica do que uma pessoa comum. Aí o leitor me pergunta: “___ Ah, mas o roteiro cria situações que o desenvolvam de uma forma mais humana, não?”. Sim, o roteiro, de fato, tenta humaniza-lo, mas sabe como o faz? Apelando aos dramas familiares mais clichês o possível para tal.

John era casado, perdeu a esposa, seu relacionamento com o único filho (que é um jovem semi-nerd que, durante alguns momentos, parece mais uma cópia xerografada do próprio pai do que qualquer outra coisa) é muito afetado porque, em virtude de sua incansável dedicação ao trabalho, não consegue dar a devida atenção ao garoto, suprindo assim a falta que a sua progenitora lhe faz. A partir daí, tudo o que vemos então é um Nicolas Cage que adota medidas clichês para representar o seu personagem, tais como: suspirar a todo o instante com a finalidade de ilustrar a melancolia pela qual passa ao notar o afastamento emocional (e, de certa forma, físico) existente entre ele e o seu sucessor.

Durante mais de quarenta e cinco minutos o filme se estende desnecessariamente nos delineando este drama familiar mais do que batido pelas produções deste gênero e juro que, enquanto estava sentado na poltrona do cinema, escrevendo em meu bloco de anotações, cheguei a rabiscar: “P*** filme chato da p****! Por que essa m**** dessa sessão não acaba logo?”. E, ironicamente, foi só terminar de grafar tais palavras que, inesperadamente, me vejo dentro de um desastre aéreo que mata oitenta e uma pessoas. Além do espetáculo conferido pelos excelentes efeitos visuais e sonoros, o plano sequência nos choca e nos assusta em face de sua verossimilhança, sendo que passamos a nos sentir praticamente dentro desta cena.

A partir de então arregalei os olhos, a trama revelou-se assustadora e curiosa. O protagonista tem um pedaço de papel na mão repleto de números que passam a lhe indicar quando e onde ocorrerá o próximo acidente de tal proporção. Ele começa então a investigar o caso laboriosamente. Seres estranhos, trajados de terno preto (outro grave estereotipo do filme), entram em cena e nos fazem formular diversas questões. Não sabemos ao certo o que eles querem com o filho de John, Caleb Koestler (Chandler Canterbury). Será que eles almejam matar o garoto? Será que almejam utiliza-lo em alguma conspiração contra a humanidade? Será que almejam protege-lo de algum mal que está por vir? Enfim, nada ficamos sabendo até o final da trama e tais questionamentos passam a nos perturbar a ponto de nos fazer roer as unhas de tensão.

Como acabará esta estória? Será que haverá um desastre causado por alienígenas que destruirá a humanidade? Será que estamos diante de um desastre ambiental que destruirá o planeta inteiro? Ou quem sabe estamos diante de uma batalha espiritual entre o Céu e o Inferno? Seria Caleb um personagem chave desta batalha (algo parecido com o ótimo “Constantine” e os fracos “Stigmata” e “Filha da Luz”)? Enfim, não sabemos ao certo com o que iremos nos deparar, e isso faz com que a tensão que os personagens passam a sentir, seja transportada diretamente até nós.

Aliás, tensão e suspense é o que não falta neste “Presságio”, principalmente graças à eficiente direção de Alex Proyas. Se por um lado o cineasta não realiza nenhum movimento com a câmera realmente satisfatório, ou nem ao menos se importa em posicioná-la de modo a criar ângulos verdadeiramente excepcionais, por outro lado o diretor se mostra um mestre em conferir terror aos seus espectadores. Repare no modo tenso como ele filma o supracitado plano-sequência do acidente aéreo, ou o cuidado que tem ao mostrar, da janela do quarto de Caleb, uma floresta em chamas, dando amostras do que poderá vir pela frente.

O filme fluia muito bem desde o início de seu segundo ato até então, eis que entra em cena duas pessoas em especial: Diana Wayland (Rose Byrne) e sua filha Abby Wayland (Lara Robinson). Foi neste momento que pensei: “pronto, o roteiro cometerá a asneira de proporcionar a John e a Caleb dois pares românticos.”. Felizmente, estava errado, e vocês nem imaginam o quão gosto de estar errado nestes casos em específico. “Presságio”, conforme havia citado no primeiro parágrafo desta crítica, é um filme pós 11 de setembro e que encarna todo o sentimento pessimista pelo qual os Estados Unidos estão passando neste atual momento. Logo, é de se esperar que John, Caleb, Diana e Abby sofram um desfecho bem diferente do que estamos acostumados a testemunhar nos blockbusters hollywoodianos (apesar de não ser algo tão trágico quanto o inesperado desfecho do ótimo “O Nevoeiro”). Aliás, o filme todo, apesar de conter bastantes clichês em seu roteiro, nos proporciona vários aspectos bem diferentes do que estamos acostumados a assistir ultimamente, e isso pode ser notado também nos motivos que poderão resultar no tão esperado desastre final (ao menos, eu nunca vi o cinema estadunidense abordar algo tão parecido).

Estranho, no entanto, é constatarmos que, mesmo com tantas qualidades visíveis, o grande trunfo de “Presságio” resida, de fato, em uma única frase. Pois é, em uma única frase, o filme consegue obter o seu atestado de qualidade. Trata-se da singela cena em que o protagonista pranteia: “___ O Mundo está para acabar e eu nada posso fazer para evitar isso!”. Com estas reles palavras, o personagem de Nicolas Cage ilustra todo o pessimismo e o temor estadunidense ao se ver incapaz de lidar com uma catástrofe ainda maior do que o próprio 11 de Setembro. Presenciamos aqui então a velação definitiva dos grandes heróis cinematográficos que salvam o mundo sozinhos. É a concretização de uma nova era que se assume cada vez mais vulnerável aos possíveis desastres que venham a ocorrer. É a desmistificação de porcarias comerciais à lá “Independency Day”, “Armagedon”, “Godzilla”, entre outras produções fajutas.

Apesar do excessivo número de clichês e personagens caricatos empregados durante o seu primeiro ato, “Presságio” revela-se, ironicamente, um instigante sopro de originalidade que parece remover cada vez mais a cortina de hipocrisia existente em Hollywood, destruindo de uma vez por todas a máscara vestida pelos pseudo-grandes heróis dos filmes-catástrofes, relegando-os a uma incapacidade de ação perturbadora.

É o retorno do bom, e verdadeiro, cinema-catástrofe, que dá as mãos a Nicolas Cage e o trás de volta à excelente atuação (apesar de seu primeiro ato ridículo, o ator encarna seu personagem com maestria na metade e no final da trama).

Obs.: Genial a idéia dos coelhos, já que, simbologicamente, eles representam a reprodução na natureza.

Obs. 2: Quem assistir a “Presságio” saberá o que estou desejando dizer na observação supra.

Obs. 3: Por motivos de coerência, optei retificar o último parágrafo, que antes encontrava-se assim: “Presságio” revela-se, ironicamente, um instigante sopro de originalidade, apesar do excessivo número de clichês e personagens caricatos empregados durante o seu primeiro ato…”, para “Apesar do excessivo número de clichês e personagens caricatos empregados durante o seu primeiro ato, “Presságio” revela-se, ironicamente, um instigante sopro de originalidade que parece remover cada vez mais a cortina de hipocrisia existente em Hollywood, destruindo de uma vez por todas a máscara vestida pelos pseudo-grandes heróis dos filmes-catástrofes, relegando-os a uma incapacidade de ação perturbadora.”

Avaliação Final: 8,0 na escala de 10,0.

M – O Vampiro de Dusseldorf – **** de *****

O Oscar acabou e a partir de então volto, com muitíssima satisfação (e os(as) senhores(as) nem imaginam o quão gigantesca vem a ser tal satisfação), a assistir, analisar e publicar análises de filmes clássicos, sobretudo, clássicos de origem não-estadunidense. Recomeço com este “M – O Vampiro de Dusseldorf “, clássico absoluto de um dos meus cineastas prediletos, o magistral Fritz Lang. A minha intenção era recomeçar com “O Diário de um Pároco de uma Aldeia”, de Robert Bresson, cujo trabalho não confiro a um bom tempo (vergonha!), mas não encontrei este filme para locar em lugar algum. Fiquei com “M…”, que revelou-se um ótimo filme, sem dúvidas, mas se não fosse por todo o glamour que possui (afinal de contas, é o “pai” dos filmes noir e dos suspenses com assassinos seriais) certamente sua fama seria bem menor. Ah, boa notícia, consegui o VHS de “O Diário de…” com um amigo meu, terça ou quarta-feira que vem o assisto e o comento.

M – O Vampiro de Dusseldorf (M, 1.931, dirigido por Fritz Lang) – **** de *****

Crítica:

O leitor já deve ter assistido a algum(ns) filme(s) de suspense onde o assassino da trama nos é apresentado através de uma sinistra sombra projetada na parede, não? Também já deve ter assistido a algum(ns) outro(s) filme(s) de suspense onde o diretor realiza uma tomada aérea para filmar várias escadas que formam diversos quadrados simetricamente alinhados, não? Certamente já deve ter assistido a algum(ns) outro(s) filme(s) em que observamos um grupo de policiais sentados em uma mesa, discutindo um caso intrincado, enquanto soltam fumaças de cigarros e charutos com a mesmíssima frequência que fazem as chaminés de uma indústria, não? Se a resposta para todas as três perguntas (ou duas delas que seja… ou uma… tanto faz) for: sim (o que é bem provável), seria interessante que o leitor soubesse que todas as cenas previamente citadas são oriundas do clássico de Fritz Lang: “M – O Vampiro de Dusseldorf”. Aliás, não só estas cenas são originárias do filme em questão, como também o subgênero suspense serial-killer também o é. Logo, filmes como “O Silêncio dos Inocentes”, “Se7en – Os Sete Crimes Capitais”, e é claro, os clássicos de Hitchcock, nem sequer existiriam se não fosse pela obra de Lang.

E falando no maior gênio da história do Cinema alemão, não restam dúvidas de que o trunfo de “M…” reside justamente em seu trabalho como diretor. Lang capta a alma do filme, confere suspense na dose certa ao mesmo, realiza enquadramentos mais do que excelentes (vide a sequência em que o cineasta realiza uma tomada aérea e filma um grupo de pessoas cercando o assassino, antes deste enconder-se em um prédio), utiliza a técnica dos “closes in” e “closes out” magistralmente (note o modo como ele “passeia” pelo esconderijo de um grupo de bandidos enquanto estes encontram-se sentados à mesa), enfim, o filme é dois terços de Lang, ou melhor, do diretor Lang. E o outro terço? O outro terço pertence ao próprio Lang, mas o Lang roteirista, que junto de sua esposa Thea von Harbou realiza um complexo estudo sobre a mente psicótica de seu protagonista, o serial-killer alcunhado de M (aliás, a dramaticidade envolvida na cena do julgamento é algo fora do comum).

O longa falha, no entanto, por ser frio demais durante os seus dois primeiros atos. E tal frieza não seria necessariamente ruim caso “M…” mantivesse este ritmo até o final, mas não é o que acontece. Infelizmente, ao chegar em seu desfecho, o pai dos filmes noir se amedronta e tenta nos trazer um final humanista e sensibilizado demais, algo que não soa bem em uma película que demonstrou-se extremamente racional até então. Um final muito simples (coloque-se no lugar das mães e pense se você realmente tomaria tal atitude), para um filme muito complexo. De qualquer forma, “M – O Vampiro de Dusseldorf” é uma obra obrigatória na “bagagem” de qualquer pessoa que se diga cinéfila, não apenas por ser um dos principais filmes da brilhante carreira de Fritz Lang, ou por apresentar um interessantíssimo debate sobre a pena de morte, mas também por ser a grande fonte de inspiração dos suspenses sobre assassinos em série e, é claro, o berço do Cinema noir.

Avaliação Final: 8,5 na escala de 10,0.

Sessão Nostalgia – parte 4: Janela Indiscreta (1954)

fevereiro 28, 2009 Deixe um comentário
2006.Dezembro de 2006,dias antes do natal de um ano que havia sido tumultuado,ano ao mesmo tempo importante,comecei a ter acesso as grades obras dos gênios do cinema.”Janela Indiscreta” não foi o meu primeiro Hitchcock,já assistira “Um Corpo que Cai”;”Festim Diabólico” e “A Tortura do Silêncio” antes,hoje com 14 filmes do mestre em minha cabeça (e acho que demorei menos tempo assistindo metade deles do que aprendendo a escrever seu sobrenome) posso dizer sem medo: faço coro com James Stewart e considero “Janela Indiscreta” o meu favorito do mestre,e digo mais,o filme que mais abrange os aspectos de direção dele,inovação na parte técnica,modo impecáel de contar estória,romance,comédia…Hitchcock!

A Paramount acordava assustada ao ver um quase cortiço montado em seus estudios para filmar a mais nova obra do diretor mais popular da década de 50.A adapatação de um conto policial ganharia vida nas mãos de Hitchcock,ele não desperdiçou nos detalhes,a direção de arte tem uma riqueza incomparável no cinema,as janelas mostram casas,as casas mostram vidas e as vidas não tem importanica alguma,são bonequinhos de cera brincando em um cenário bem construido e servindo de diversão e passatempo para o fotografo Jeff,que com a perna quebrada não vê modo melhor de se divertir…ou de virar uma obsessão

Alternando a visita da enfermeira pela manhã e da namorada pela noite,Jeff leva sua vidinha particular tornando pública a mediocridade dos vizinhos,quão interessante as pessoas podem ir em sua privacidade… dançam,fazem musicas,choram,sonham,fazem sexo,matam,dorme…para: matam? Sim ou não? Nesse mistério “Janela Indiscreta” se agarra como estória principal e tira o seu melhor

Hitchcock,acostumado a inovar a cada direção de filme,faz de sua obra prima uma verdadeira aula de cinema,ele dizia que com o cinema falado,muitos diretores esquecem das imagens e as fazem virar diálogos.Ele não esquece.Filme tudo com uma riqueza e detalhes e respeita a limitação de seu protagonista,o que causa imenso desconforto ao público,pois nesse grande modo de fazer suspense,não somos onipresentes,sabemos e descobrimos tudo o que Jeff descobre e esse jeito de primeira pessoa que o cineasta filma se torna essenciala toda a trama,e em especial ao marcante desfecho…somos Jeff!

E quão fantástica pode ser a vida dos vizinhos,assassinato é o ponto alto do roteiro,mas não é apenas ali que ele se apoia,estórias paralelas umas as outras são desenvolvidas brilhantemente (sempre em primeira pessoa é claro) e até dentro do apartemento a câmera da um jeito de se movimentar com lentidão,passando o tédio do protagonista. O roteiro e a direção se respeitam em seu ritimo lento,um sem atropelar o outro com uma edição digna que nos coloca em xeque a cada momento,inclusive a reviravoltas durante toda a trama

Construindo uma das parcerias mais ricas do cinema,’Janela Indiscreta’ é o segundo de quatro filmes de Hitch-Stewart (e se Hitchcock subiu a deus nesse filme,também virei fã de Stewart,ainda mais que Janela e “A Felicidae não se Compra” foram alugados juntos),seria injusto desmerecer James Stewart e só dar meritos a Alfred nesse filme,a cara de entediado a de surpresa são obras do ator que fez do antipatico Jeff um personagem com humor tolerável de passar duas horas.Junto a ele a grande paixão de 10 em 10 cinéfilos,ela,a linda e talentosa Grace Kelly,no conto a personagem dela não existe,no filme ela é muito mais que uma ilustração,é peronagem essencial aos acontecimentos e que revela e desenvolve traços peculiares do protagonista.Grace é linda e no filme Hitchcock explora ao máximo sua beleza,ela é doce e esperta,e a responsável pela segunda maior cena do filme,onde de vez ela se infiltra no apartamento vizinho e pasa a virar um dos bonequinhos espionados,também é de Grace a melhor frase de “Janela Indiscreta”,quando a mesma diz que não acredita que estão chateados porque um assassinato não foi cometido,e a bela atriz só não é dona da melhor cena do filme,pois essa pertence exclusivamente ao diretor.

Fala marcante a da Grace…diálogos marcantes,afiados e cheios de humor não faltam nesse maravilhoso filme de 1954.Stewart-Kelly e uma terceira personagem interpretada por Thelma Ritter (deA Malvada) embalam o filme,fazendo do que seria um simples suspense,uma das mais complexas obras cinematográficas.

Com um legado incrível com dezenas de filmes,”Janela Indiscreta” permance vivo como trabalho influente do diretor,e não apenas isso,sobreviveu e se colocou como gigante em um ano que oferecia também “Sindicato de Ladrões” e “Os Sete Samurais”.Um filme que deve ser guardado em um baú de ouro,uma jóia não só na sétima arte,mas também nas artes em geral.