Poema – O Cadáver e o Efêmero Peregrino

Outro poema de minha autoria (pois é, disse que iria viciar nisso, não disse?). Este aqui foi baseado totalmente em fatos reais, vivenciados por mim na última noite de sábado (06 de junho de 2009), exceto, é claro, no que diz respeito à carga sobrenatural incluída nesta prosa, que deve ser encarada pelo leitor metaforicamente, e não literalmente ou até mesmo metafisicamente. O que o cadáver do poema vem a representar? Oras, leia e tire as suas próprias conclusões.

O Cadáver e o Efêmero Peregrino, por Daniel Esteves de Barros


Memórias de uma gélida e taciturna madrugada de sábado

Cujo único ruído perceptível aos ouvidos humanos

Provinha do forte vento que relutava contra as árvores

Que os seus galhos balançavam com involuntária ferocidade

O impávido zéfiro castigava o peregrino

Que sem propósito e sem destino, traçava o seu caminho

Sozinho, ele perambulava pelas ermas vias urbanas

Lutando bravamente contra o frigido acoimo hiemal

Não havia um escopo neste seu excêntrico ato

Não havia uma insaciável busca por alvedrio

Não havia uma insaciável busca pelo inaudito

Não havia uma insaciável busca pela fleuma espiritual

Quiçá fosse apenas uma fuga existencial

Quiçá fosse apenas uma retrospecção de alguns de seus momentos infantes

Quiçá fosse apenas uma oportunidade de voltar ao passado

Quiçá fosse apenas uma atitude convulsiva de uma mente perturbada

Fosse o que fosse, aquilo era um desafio

Um repto sugerido a fim de confrontar a si mesmo

Não necessariamente uma busca, e sim uma fuga

Uma escapula do que já não mais lhe confortava

Pensamentos martelavam a cabeça do efêmero andarilho

O calor de tuas mãos não mais me aquece, matutava ele

Não mais violarei vosso nuvioso túmulo

Não mais farei amor contigo neste cemitério da vida

Teus abraços não mais me consolam

Tuas mãos encontram-se cada dia mais álgidas

O esputo de teus lábios carcome a minha carne

A macieza de tua vulva só me causa náuseas

Chega! Não mais relacionar-me-ei contigo

Teu formoso corpo não mais tem a mesma forma

Tua volúpia nada mais é do que a propagação de uma ilusão

De um passado que não mais voltará

Despeço-me de ti, ó minha eterna amada

O teu vulto, antes belo, agora se encontra putrefato

E é com poucas lamúrias e ressalvas que tomo esta decisão

Enterrar-te-ei novamente, para jamais voltar a violar vosso jazigo

Agora deverás descansar em paz

Vossa carne poderá, enfim, ser decomposta pelos vermes

E enquanto busco a magia que compõe a autodestruição

Vejo o teu corpo se esfacelando relutantemente em vosso ataúde

Findam-se os lúgubres e sinistros pensamentos

A despropositada e não alicerçada pequena jornada prossegue

A inclemente ventania ainda rasga-lhe o tecido carnal que lhe compõe o rosto

Corta-lhe a carne, alfineta-lhe a vulnerabilidade corpórea e atinge-lhe a alma

O efêmero andarilho se vê então diante de paredes de concreto

Tudo lhe lembra a infância, mas não mais os bons momentos desta

Os muros estão todos ali, parados, no exato lugar onde estiveram outrora

Nada mudou, tudo se encontra da mesma forma que se encontrara anos atrás

Pessoas se foram, pessoas chegaram, pessoas ali habitaram

E a inexorável passagem do tempo a todos castigou

Mas as residências permaneceram exatamente as mesmas

Com suas raras alterações, sendo a maioria imperceptíveis

Pequenas moradias ganharam adendos

Transformaram-se em lares ligeiramente suntuosos

Mas no saldo final, o peregrino constatou que poucas foram as mudanças

E, em sua maioria, mutações que atingiram um resultado ainda mais negativo

As pessoas sobrevivem, vivenciam semelhantes cotidianos

Transformam os seus pertences, mas não transformam a si mesmas

E os anos que lenta e maçantemente se passam, as acoimam

Mas jamais punem os seus pertences, que a tudo parecem resistir

Suas residências ali se mantêm com obstinada rigidez

Mas as pessoas que as construíram, não mais

Seriam então os seus bens ainda mais fortes e marcantes do que elas mesmas?

Tal questionamento perturba a mente do corriqueiro andarilho

Acabrunhado ainda mais pelo gigantesco e atormentador contraste social

Que pode ser visivelmente notado dentro de um insignificante espaço geográfico

Cuja discrepância vem a nos ser anunciada aos berros e alardes

Pequenas suntuosidades aqui, gradativas adversidades meia quadra abaixo

Tudo isto causa uma excessiva mortificação à alma do andarilho

Que se volta para trás e segue, de cabeça baixa, o seu desconexo rumo

E enquanto vaga pelas ermas e sorumbáticas vias urbanas

Passa a lucubrar e opta por voltar-se ao cemitério da vida

Voltei-me para ti, ó minha eterna amada, diz o peregrino

E o esquife se abre, o cadáver se levanta e uma mão puxa-lhe o braço

O efêmero andarilho é então definitivamente tragado pela terra

E é ali, que para a sua perene felicidade, passará o resto de seus dias

Memórias de uma gélida e taciturna madrugada de sábado

Cujo único ruído perceptível aos ouvidos humanos

Provinha do forte vento que relutava contra as árvores

Que os seus galhos balançavam com involuntária ferocidade

Poema – O Cadáver e o Efêmero Peregrino

Outro poema de minha autoria (pois é, disse que iria viciar nisso, não disse?). Este aqui foi baseado totalmente em fatos reais, vivenciados por mim na última noite de sábado (06 de junho de 2009), exceto, é claro, no que diz respeito à carga sobrenatural incluída nesta prosa, que deve ser encarada pelo leitor metaforicamente, e não literalmente ou até mesmo metafisicamente. O que o cadáver do poema vem a representar? Oras, leia e tire as suas próprias conclusões.

O Cadáver e o Efêmero Peregrino, por Daniel Esteves de Barros


Memórias de uma gélida e taciturna madrugada de sábado

Cujo único ruído perceptível aos ouvidos humanos

Provinha do forte vento que relutava contra as árvores

Que os seus galhos balançavam com involuntária ferocidade

O impávido zéfiro castigava o peregrino

Que sem propósito e sem destino, traçava o seu caminho

Sozinho, ele perambulava pelas ermas vias urbanas

Lutando bravamente contra o frigido acoimo hiemal

Não havia um escopo neste seu excêntrico ato

Não havia uma insaciável busca por alvedrio

Não havia uma insaciável busca pelo inaudito

Não havia uma insaciável busca pela fleuma espiritual

Quiçá fosse apenas uma fuga existencial

Quiçá fosse apenas uma retrospecção de alguns de seus momentos infantes

Quiçá fosse apenas uma oportunidade de voltar ao passado

Quiçá fosse apenas uma atitude convulsiva de uma mente perturbada

Fosse o que fosse, aquilo era um desafio

Um repto sugerido a fim de confrontar a si mesmo

Não necessariamente uma busca, e sim uma fuga

Uma escapula do que já não mais lhe confortava

Pensamentos martelavam a cabeça do efêmero andarilho

O calor de tuas mãos não mais me aquece, matutava ele

Não mais violarei vosso nuvioso túmulo

Não mais farei amor contigo neste cemitério da vida

Teus abraços não mais me consolam

Tuas mãos encontram-se cada dia mais álgidas

O esputo de teus lábios carcome a minha carne

A macieza de tua vulva só me causa náuseas

Chega! Não mais relacionar-me-ei contigo

Teu formoso corpo não mais tem a mesma forma

Tua volúpia nada mais é do que a propagação de uma ilusão

De um passado que não mais voltará

Despeço-me de ti, ó minha eterna amada

O teu vulto, antes belo, agora se encontra putrefato

E é com poucas lamúrias e ressalvas que tomo esta decisão

Enterrar-te-ei novamente, para jamais voltar a violar vosso jazigo

Agora deverás descansar em paz

Vossa carne poderá, enfim, ser decomposta pelos vermes

E enquanto busco a magia que compõe a autodestruição

Vejo o teu corpo se esfacelando relutantemente em vosso ataúde

Findam-se os lúgubres e sinistros pensamentos

A despropositada e não alicerçada pequena jornada prossegue

A inclemente ventania ainda rasga-lhe o tecido carnal que lhe compõe o rosto

Corta-lhe a carne, alfineta-lhe a vulnerabilidade corpórea e atinge-lhe a alma

O efêmero andarilho se vê então diante de paredes de concreto

Tudo lhe lembra a infância, mas não mais os bons momentos desta

Os muros estão todos ali, parados, no exato lugar onde estiveram outrora

Nada mudou, tudo se encontra da mesma forma que se encontrara anos atrás

Pessoas se foram, pessoas chegaram, pessoas ali habitaram

E a inexorável passagem do tempo a todos castigou

Mas as residências permaneceram exatamente as mesmas

Com suas raras alterações, sendo a maioria imperceptíveis

Pequenas moradias ganharam adendos

Transformaram-se em lares ligeiramente suntuosos

Mas no saldo final, o peregrino constatou que poucas foram as mudanças

E, em sua maioria, mutações que atingiram um resultado ainda mais negativo

As pessoas sobrevivem, vivenciam semelhantes cotidianos

Transformam os seus pertences, mas não transformam a si mesmas

E os anos que lenta e maçantemente se passam, as acoimam

Mas jamais punem os seus pertences, que a tudo parecem resistir

Suas residências ali se mantêm com obstinada rigidez

Mas as pessoas que as construíram, não mais

Seriam então os seus bens ainda mais fortes e marcantes do que elas mesmas?

Tal questionamento perturba a mente do corriqueiro andarilho

Acabrunhado ainda mais pelo gigantesco e atormentador contraste social

Que pode ser visivelmente notado dentro de um insignificante espaço geográfico

Cuja discrepância vem a nos ser anunciada aos berros e alardes

Pequenas suntuosidades aqui, gradativas adversidades meia quadra abaixo

Tudo isto causa uma excessiva mortificação à alma do andarilho

Que se volta para trás e segue, de cabeça baixa, o seu desconexo rumo

E enquanto vaga pelas ermas e sorumbáticas vias urbanas

Passa a lucubrar e opta por voltar-se ao cemitério da vida

Voltei-me para ti, ó minha eterna amada, diz o peregrino

E o esquife se abre, o cadáver se levanta e uma mão puxa-lhe o braço

O efêmero andarilho é então definitivamente tragado pela terra

E é ali, que para a sua perene felicidade, passará o resto de seus dias

Memórias de uma gélida e taciturna madrugada de sábado

Cujo único ruído perceptível aos ouvidos humanos

Provinha do forte vento que relutava contra as árvores

Que os seus galhos balançavam com involuntária ferocidade

Poema – A Bruma da Incerteza

Pois é, outro poema. Fazer o quê, não é? Com vocês:

A Bruma da Incerteza, por Daniel Esteves de Barros

Ó pálida fuligem, que paira sobre as nossas vidas
Encobristes os campestres caminhos
Proporcionou-nos o flerte com o desconhecido
Em face de ti nos caem as incertezas
Recalcadas sob o mais belo mistério
Que nos tira a visão concreta do caminho a ser traçado
Mas nos brinda com a possibilidade de encontrar o desconhecido
Aquilo que é novo, aquilo que está por vir

E há algo mais belo do que o misterioso?
O real progenitor da ciência e da arte, segundo Einstein
Vossa emblemática coberta que nos oculta a fatídica obviedade da vida
E que nos dá a esperança para continuarmos buscando a perfeição
Que jamais será alcançada, mas nos atribui o motivo de nossa existência
Traçando caminhos que, por ti, são tão lindamente ocultados
E nos proporcionam os mais embaraçosos questionamentos
Ora bons e instigantes, ora cruéis e perturbadores

Ó pálida fuligem, que a incerteza em nós nos proporciona
É a passos deveras cautelosos que rasgamos vosso véu
Descortinamos vosso conveniente arrimo ao desconhecido
E o concreto sentimento da mais dilatada imprecisão
Finalmente nos atinge por inteiro e faz-nos interrogarmos
O que escondestes tão sigilosamente de nós?
Dai-nos a devida concessão para que possamos amplamente averiguar?
E findarmos se nos escondes algo de bom, de ruim, ou mais do mesmo?

Fim de Semana Especial – Jean Renoir

Resolvi dedicar este fim de semana a assistir a alguns filmes de Jean Renoir, uma vez que o diretor não é só um de meus dez favoritos, como também tem uma contribuição para lá de importante à sétima Arte. Filho do famoso pintor impressionista Pierre-Auguste Renoir (que dentre vários quadros, pintou “Le Moulin de la Galette” e “O Almoço dos Remadores”), Jean foi extremamente subestimado durante a sua época, vindo a fazer sucesso apenas anos mais tarde, quando cineastas como Claude Chabrol, Jean-Luc Godard e François Truffaut involuntariamente criaram a “Nouvelle Vague” e passaram a afirmar que uma de suas maiores (se não a maior) fontes de inspiração havia sido o próprio Jean Renoir. Mas por que o cineasta fora tão subestimado, sendo que o mesmo conta com um leque de qualidades raríssimas em seu trabalho? Talvez porque Jean tivesse uma visão extremamente pessimista da sociedade pré-Segunda Guerra Mundial. Por mais que o sentimento da população européia dos anos 1.920 e 1.930 fosse extremamente ululante, é bem provável que as pessoas almejassem ir ao cinema com o intento de distrair a falta de esperança, e não alimentar a mesma. De uma forma ou de outra, Jean daria a volta por cima e marcaria o seu nome na história da Arte de maneira tão gloriosa quanto (ou quem sabe ainda mais gloriosa) o seu pai o fez, e é por este motivo que dedico estes quatro pequeninos textos a ele.
Tire au Flanc (Tire au Flanc, Comédia, 1.928, França, Jean Renoir) – **** de *****

Os trabalhos de Jean Renoir sempre estão bem à frente de seu tempo, pois neles temas como críticas sociais e a hipocrisia matrimonial são abordadas com grande frequência. “Tire au Flanc”, no entanto, segue na contramão e revela-se uma comédia bastante datada, tanto no que diz respeito à sua trama, como no que diz respeito às abordagens sociais e conjugais as quais traça.
A premissa, por si só, já é bastante interessante e aborda um tema muitíssimo comum na época: a vida no exército. Mas não só este estilo de vida ganha total destaque no filme, como também (e principalmente, diga-se) a abordagem que ele realiza sobre um indivíduo nobre que tem de lidar com o fato de ser um soldado como outro qualquer, já que, no quartel general, a sua posição social pouco importa aos demais cadetes, que aproveitam-se da situação para atazanar o pobre rico rapaz.
Além disso, o longa é bem divertido e conta com alguns momentos bem cômicos, especialmente quando faz o uso de diálogos para tal (sim, o filme é mudo, mas contém aquelas convencionais frases que são escritas sobre uma tela preta a fim de ilustrar as frases que os personagens “dizem”). Como não rir, por exemplo, com dizeres do tipo: “O Tenente estava disposto a arrumar uma noiva para si, independentemente de quem pertencesse tal noiva” (pois é, novamente Renoir aborda o adultério dentro da alta sociedade), “No exército, muitas vezes compensa você ser um completo imbecil, mas deve-se evitar passar dos limites” e “Ele é um perfeito idiota, mas há uma justificativa, ele é um poeta”.
Infelizmente, o mesmo humor que vigora a parte, digamos, “verbal” do longa faz bastante falta na construção do humor físico. Conforme dissera no início desta mini-crítica, “Tire au Flanc” conta com um humor datado. Contudo, não posso entrar em contradição e fugir daquilo que sempre defendi: “uma obra cinematográfica deve ser julgada de sempre acordo com a época a qual a mesma fora produzida”. É fato que muitos críticos fazem o contrário, mas no meu caso, prefiro seguir à risca a minha tese.
Juro que fiz isso e acabei ignorando o fato de que, mostrar pessoas se queimando com o café na mesa de jantar e tropeçando a todo o instante (dentre outras muitas situações exageradas que o filme nos apresenta) é deveras obsoleto. Para falar a verdade, esse tipo de humor, na época, nem antiquado era, muito pelo contrário, era bastante comum. O problema reside mesmo é na artificialidade das situações. O que Charles Chaplin sabia fazer naturalmente, Jean Renoir parece ter um pouco de dificuldade para o fazer.
Mas é como mencionei acima, “Tire au Flanc” é um filme divertido, interessante e que aborda, ainda que de soslaio, críticas sociais e a forte hipocrisia contida nos relacionamentos amorosos formados por membros da classe alta.
Seria óbvio demais mencionar que a direção de Renoir é fantástica e conta com várias técnicas, sobretudo de afastamento (destaque para a cena onde ele acompanha o protagonista adentrando o quartel pela primeira vez. Conforme o poeta avança, a câmera do diretor (que encontra-se de frente para ele) vai se afastando aos poucos) e tomadas aéreas? Seria? Tudo bem, então encerro esta mini-crítica por aqui.

Avaliação Final: 8,0 na escala de 10,0.

***********************************************************************************************

A Cadela (La Chienne, Drama, 1.931, França, Jean Renoir) – ***** de *****

Quando o filme se inicia, a primeira coisa que vemos é um curioso teatro de marionetes onde um dos bonecos nos alerta que o longa a seguir não se tratará de uma trama com heróis e vilões, mas sim de uma estória com pessoas comuns, como você e eu. Para ser sincero, não diria que é necessariamente assim, ao menos durante o início do filme. O protagonsita Maurice Legrand (Michel Simon), por exemplo, segue muito o estereótipo do ‘mocinho’ injustiçado. Legrand é constantemente humilhado pela autoritária (e também caricata, diga-se) esposa Adéle (Magdeleine Bérubet), é motivo de chacota entre os vizinhos e, principalmente, os colegas de trabalho, e, não bastasse isso tudo, ainda envolve-se com uma amante falsa e hipócrita chamada Lulu (Janize Marèze) que lhe tira muito dinheiro e entrega tudo ao namorado Dedé (Georges Flamant), um gigolô de marca maior.
Entretanto, mesmo contendo um caráter excessivamente estóico e sendo um homem de bom coração, Legrand está longe de ser o típico protagonista moralmente correto que o Cinema estava acostumado a presenciar em plena década de 1.930. Assim como a grande maioria dos personagens, o nosso ‘herói’ aqui comete erros imperdoáveis (e se você ainda não assistiu ao filme, sugiro que pare de ler este parágrafo e pule para o próximo), como furtar os cofres da empresa onde trabalha e permitir que um determinado personagem receba uma punição (merecida, diga-se) por um erro que não cometeu.
As demais figuras que compõem a trama também estão longe de seguir o código de conduta moral e todos revelam-se eticamente repugnantes. E é tecendo o caráter destes personagens tartufos e cínicos que o roteiro de André Girard e Jean Renoir explana todo o seu sentimento de pessimismo perante à sociedade da época (e até mesmo a sociedade atual, afinal de contas, os filmes de Renoir sempre estiveram bem a frente de seu tempo, uma vez que inspiraram Chabrol a criar a “Nouvelle Vague” no final dos anos 1.950), onde notamos que até as pessoas mais aparentemente dignas se mostram dissimuladas quando veem (sem circunflexo) uma corpórea oportunidade de prosperar na vida às custas de outras pessoas.
O grande trunfo de “A Cadela”, por sua vez, reside na direção de Renoir. Aqui, um dos mais brilhantes cineastas de todos os tempos, não só se destaca nas técnicas de afastamento de câmera, criação de ângulos perfeitos (a maior prova disso é uma cena onde o diretor posiciona sua câmera em um local do apartamento de Legrand onde podemos, em uma única tomada, ver a sua esposa abrindo o armário em um quarto e o protagonista pintando um quadro em outro), “travelings” e “deep focus” (esse último é pouco utilizado, mas ainda assim merece muito destaque), como também ao conferir à trama toda a sensibilidade a qual a mesma necessita para funcionar corretamente (em uma determinada tomada, Renoir balança a câmera com ímpeto enquanto filma Dedé e Lulu dançando uma valsa, para que assim possa mostrar toda a fúria pela qual o primeiro estava passando).
“A Cadela” é, em suma, uma pequena grande obra-prima de Renoir. Uma mostra do majestoso trabalho que o cineasta viria a realizar ao longo dos anos 1.930.

Avaliação Final: 8,8 na escala de 10,0.

***********************************************************************************************

Um Dia no Campo (Une Partie de Campagne, Drama, 1.936, França, Jean Renoir) – ***** de *****

“Um Dia no Campo” é considerada por muitos a obra-prima inacabada de Jean Renoir. Concordo com cada palavra. Não seria exagero afirmar que uma das maiores tragédias da história do Cinema foi a incapacidade do cineasta francês mais importante da década de 1.930 concluir definitivamente esta sua magistral ode à Arte Impressionista. Arte Impressionista? Sim, Arte Impressionista.
O cineasta realiza aqui uma homenagem a vários pintores que seguiam este movimento artístico, tais como: Guy de Maupassant, Claude Manet e, principalmente, seu pai, Pierre-Auguste Renoir. A mesma beleza e sensibilidade com a qual o seu progenitor registrava um grupo de pessoas almoçando e dançando em uma suntuosa festa (a propósito, considero “Le Moulin de la Galette” o mais belo quadro dentre os quais já tive a oportunidade de conferir), Jean adota aqui para filmar um grupo de pessoas fazendo um piquenique em um bosque.
O média é de uma beleza visual incrível e a união formada entre direção, fotografia e trilha-sonora transformam “Um Dia no Campo” em um dos filmes mais lindos da história do Cinema.
E não é só a formosa aparência da obra que merece destaque. O média ainda encontra tempo para fazer uma leve crítica à hipocrisia contida na vida matrimonial da alta-sociedade (o quê? Já citei isso acima? Fazer o quê, Renoir adora bater nessa tecla, ainda que se reinvente a cada filme).
“Um Dia no Campo” falha apenas pelo fato de ser um filme inacabado, uma vez que a edição se vê obrigada a dar um grande salto no tempo a fim de manter a conexidade entre o início e o fim do média.
Destaque para a ponta que o diretor faz no filme, onde assume o papel do cozinheiro Père Poulain e esbanja carisma.

Avaliação Final: 9,0 na escala de 10,0.

***********************************************************************************************

Não assisti a “A Regra do Jogo” recentemente, o fiz no final do ano passado, mas decidi republicar este texto aqui justamente a fim de aumentar a minha homenagem a este impressionante cineasta que fora Jean Renoir.

A Regra do Jogo (La Règle du Jeu, Drama, 1.939, França, Jean Renoir) – ***** de *****

Jean Renoir foi, inquestionavelmente, um dos nomes que mais serviu de inspiração aos Cinemas moderno e contemporâneo. Antes mesmo de Federico Fellini estabelecer um complexo e contundente panorama sobre as nugacidades adotadas e cultivadas pela alta sociedade a fim de preencher o seu vazio existencial, Jean Renoir já havia o feito em 1.939 em “A Regra do Jogo”. Antes mesmo de Woody Allen traçar as fragilidades de relacionamentos amorosos alicerçados em um pseudo sentimento de amor, Jean Renoir já havia o feito em 1.939 em “A Regra do Jogo”. Introduzindo o espectador em sua obra-prima máxima com uma majestosa sinfonia composta por Wolfgang Amadeus Mozart, o filho de Auguste Renoir (um dos pintores impressionistas de maior renome na história da Arte) nos apresenta à filosofia adotada por ele quando o assunto em pauta é o amor: tal sentimento é rotativo e por este motivo é cada vez mais comum nos depararmos com indivíduos de todas as castas sociais que cometam adultérios.
Considerado um dos filmes cults de Arte mais importantes de todos os tempos, “A Regra do Jogo” utiliza de pano de fundo para retratar a filosofia adotada por Renoir uma suntuosa casa de campo no interior da França onde alguns aristocratas e seus respectivos empregados se unem durante um final de semana para caçar coelhos e faisões. A partir de então somos convidados a conhecer e a conviver, durante dois ou três dias, com um grupo de pessoas fúteis e materialistas. Todos os personagens do longa têm fortes desvios de caráter, porém, se vêem obrigados a maquiar isto perante à sociedade hipócrita e falsa onde vivemos. Homens traem suas esposas, mulheres traem seus maridos, todos alegam que a mentira é uma característica inerente ao ser humano, pessoas se apegam a medidas frívolas e nulas a fim de preencher o vazio existencial presente em seus insossos cotidianos e, no final… bem, no final (um dos desfechos mais imprevisíveis e surpreendentes da história do Cinema) ocorre uma tragédia, tragédia esta que nos faz lucubrar sobre até quando falsos moralismos cristãos irão imperar em nossas vidas (conforme diz um personagem do filme: “___ Corretos estão os mulçumanos que têm um harém ao seu dispor e podem dedicar o verdadeiro amor à mulher que mais ama, sem precisar desprezar as demais).

Avaliação Final: 10,0 na escala de 10,0.

Um Corpo Que Cai – ***** de *****

Não gosto de dar nota 9,5 a qualquer filme que seja. Muitas vezes já dei notas exageradamente quebradas a muitas obras do Cinema, mas 9,5, sabe-se lá o porquê, nunca gostei de conferir a filme algum. Em “Um Corpo Que Cai” vi-me impossibilitado de manter esta tradição, pois sabia claramente que estava diante de um filme perfeito demais para receber uma nota 9,0 (avaliação que atribuo a produções excelentes). Entretanto, mesmo sendo uma obra praticamente completa e esmerada, “Um Corpo Que Cai” se revelou um longa metragem levemente falho quanto à ligeira previsibilidade contida em seu roteiro, uma vez que, com o passar do tempo, começamos a ter uma noção de como o filme irá se encerrar. De qualquer forma, o suspense é atormentador do início ao fim e nos deixa com um sentimento de curiosidade para lá de insuportável, conforme poderemos perceber mais abaixo, no texto do filme.

Ficha Técnica:
Título Original: Vertigo.
Gênero: Suspense.
Tempo de Duração: 128 minutos.
Ano de Lançamento: 1958.
País de Origem: Estados Unidos da América.
Direção: Alfred Hitchcock.
Roteiro: Samuel A. Taylor e Alec Coppel, baseado em livro de Pierre Boileau e Thomas Narcejac.
Elenco: James Stewart (John “Scottie” Ferguson), Kim Novak (Madeleine Elster), Barbara Bel Geddes (Marjorie “Midge” Wood), Tom Helmore (Gavin Elster), Raymond Bailey (Médico de John), Konstantin Shayne (Pop Leibel), Ellen Corby, Lee Patrick, Henry Jones e Alfred Hitchcock.

Sinopse: Em São Francisco, um detetive aposentado (James Stewart) que sofre de um terrível medo de alturas é encarregado de vigiar uma mulher (Kim Novak) com possíveis tendências suicidas, até que algo estranho acontece nesta missão.

Fonte Sinopse: Adoro Cinema.

Vertigo – Trailer:

Crítica:

Ao lado de “2001 – Uma Odisséia no Espaço” e “Apocalypse Now”, “Um Corpo Que Cai” figura facilmente no topo da lista dos filmes mais aterrorizantemente perturbadores a que já assisti. E quando menciono “perturbadores” não me refiro à capacidade deste filme fazer com que nos sintamos mal após o término de sua sessão, como é o que acontece no perfeito “Clube da Luta”, no excelente “Dogville” e no ótimo “Violência Gratuita”, mas sim à perfeição com a qual o mesmo nos passa uma incômoda e desesperadora sensação de que, até o desfecho do longa, iremos morrer (a sensação que o filme de Kubrick nos passa) ou ficarmos completamente alucinados (a sensação que o filme de Coppola nos passa).

A princípio, o longa soa simples e convencional. Não reparamos em nada demais no mesmo. O protagonista é um velho detetive que se encontra afastado da polícia devido a um trauma que contraiu em uma missão onde ficou pendurado no telhado de um prédio a uma altura considerável do chão. Seu nome é John Ferguson, vulgo Scottie. Ferguson recebe uma proposta de um antigo colega de faculdade, Gavin Elster, que pede para que ele vigie a sua esposa, Madeleine Elster, que vem agindo com demasiada estranheza ultimamente, praticamente “vivendo” a vida de uma mulher que cometera suicídio no passado.

Conforme a trama vai se desenrolando e alguns pontos vão sendo claramente explicados, nos vemos diante de uma estória que mostra três possíveis caminhos a serem percorridos, e por mais que muitos deles se mostrem significantemente inverossímeis, eles jamais podem ser alcunhados de desconexos ou implausíveis de serem absorvidos dentro do contexto da obra em questão. Hitchcock cria aqui um emaranhado de possibilidades que podem muito bem ser estendidas tanto a um suspense, quanto a um terror paranormal, fazendo com que a curiosidade que passa a crescer dentro de nós, espectadores, se torne forte o bastante para não conseguirmos aprisioná-la racionalmente no interior de nossos próprios corpos, chegando a ponto de quase perdermos a razão e sairmos gritando pelas ruas.

O filme trata de um caso paranormal? De um encosto espiritual que muda completamente a personalidade de uma pessoa? De uma personagem com uma mera inclinação suicida? De um homicídio armado? De um caso de loucura elevada à máxima potência? Difícil respondermos até a metade da projeção. E por mais que a trama soe levemente previsível durante alguns poucos momentos, não há como deixarmos de levantar todas estas questões e traçarmos mentalmente as várias hipóteses as quais o longa pode real e definitivamente nos levar.

Enquanto não chegamos a uma exata conclusão do caso, passamos a nos perturbar imensamente. O filme incomoda, atormenta, ganha vida, nos abraça e não nos larga jamais. Chegamos a ter medo de ficar o acompanhando diante da tela e, quando o desfecho enfim acontece e os créditos finais aparecem, o suspense ainda se mostra capaz de nos deixar enleados com o que acabamos de presenciar em seus atormentadores últimos segundos de projeção.

E não só o suspense em si se revela intenso o bastante para nos fazer fixar e grudar os olhos na tela. Conforme fora mencionado na quarta linha do parágrafo anterior, o mistério tem uma luz quando o filme praticamente chega a sua metade. Mas então qual seria a graça de continuarmos acompanhando a trama por mais uma hora, já que sabemos parcialmente o que havia ocorrido? Respondendo sucintamente: a graça está em notarmos o modo como a vida de Ferguson fica alterada após o ocorrido. Os roteiristas Samuel A. Taylor e Alec Coppel acertam em cheio ao fazer com que os espectadores tenham um ligeiro conhecimento do ocorrido durante a metade do filme, pois é a partir daí que podemos sentir na pele o drama do protagonista, que sabe muito menos do que nós mesmos sabemos.

Passamos a nos incomodar com o rumo que a vida de Ferguson vai tomando e nutrimos uma vontade moral de penetrar na tela e dizer ao detetive o que realmente aconteceu. Obviamente nos vemos impossibilitados de realizar tal façanha, o que acaba nos atormentando ainda mais. Acompanhamos então a rotina de um homem que passa a viver a beira da loucura, até que um determinado incidente muda tudo. E é justamente quando pensamos que Scottie deixará de atormentar tanto a si mesmo que passamos a testemunhar uma subtrama ainda mais transtornadora. Trata-se do doentio romance que o protagonista passa a ter com uma personagem que surge próxima do desfecho do filme, algo que se revela tão cativante quanto o mistério que havíamos presenciado há pouco tempo atrás e se firma competente o bastante para segurar a trama com o mesmo ritmo com o qual esta se iniciou.

Entretanto, por mais destaque que a excelente trama mereça, não posso deixar de citar também a direção de Alfred Hitchcock. Por mais que o meu desejo ultimamente seja o de, cada vez mais, reduzir os meus textos, torna-se impossível não alongar esta crítica um pouco mais para falar do grande gênio do suspense cinematográfico e, considerado por muitos (o que está longe de ser o meu caso, mas enfim…), do Cinema como um todo, superando até mesmo mestres do naipe de Stanley Kubrick, Orson Welles, Jean-Luc Godard e Jean Renoir.

Hitchcock sempre levou fama de ser extremamente inventivo e ousado e “Um Corpo Que Cai” talvez seja a maior prova disso. Foi através deste filme que, a fim de fazer com que o espectador senti-se na pele a acrofobia característica do protagonista, o diretor criou a técnica chamada de “zoom out”, que viria a ser empregada por Stanley Kubrick em clássicos absolutos como “2001 – Uma Odisséia no Espaço” e, principalmente, “Laranja Mecânica”.

Um simples diretor teria filmado o excelente James Stewart olhando para baixo e fingindo estar com um terrível atordoamento, mas Hitchcock o fez de um modo muito superior. Fez com que nós, espectadores, também partilhássemos da sensação vivenciada pelo protagonista. É como se “ganhássemos” o mesmo par de olhos utilizado por Scottie e começássemos a sentir a mesma vertigem que ele, o que só vem a fazer com que a trama toda soe ainda mais verossímil do que ela soaria nas mãos de um outro cineasta qualquer.

Não sei se “Um Corpo Que Cai” pode ser tida como a grande obra-prima da magistral carreira de Alfred Hitchcock. Talvez outras obras como “Janela Indiscreta”, “Psicose” e até mesmo “Rebecca – A Mulher Inesquecível” mereçam mais este título. Ou talvez não. Mas isso não importa. O importante é que “Um Corpo Que Cai” é um filme que deve obrigatoriamente fazer parte da lista de filmes assistidos por qualquer pessoa que se diga cinéfila.

Mais do que meramente recomendado, “Um Corpo Que Cai” é um filme obrigatório.

Avaliação Final: 9,5 na escala de 10,0.

Star Trek – **** de *****

Não sou fã incondicional da franquia “Star Trek” (exceto no que se refere ao filme “Jornada nas Estrelas II: A Ira de Khan”, que é o único que considero como sendo uma verdadeira obra-prima do Cinema) e isso diz respeito tanto aos episódios feitos para a televisão, ao longo da década de 1.960, quanto aos episódios feitos para o Cinema, produzidos, em sua maioria, ao longo da década de 1.980. Contudo, o meu pai é simplesmente fanático pela série (a Velha Geração somente, apesar de ele gostar um pouco da Nova Geração) e coleciona quase tudo o que vê pela frente e refere-se à mesma. Logo, por mais que o meu fanatismo por “Star Trek” esteja longe de, sequer, engraxar as botas da paixão que nutro por “Star Wars”, respeito, e muito, a franquia, e ouso dizer que, principalmente por influencia de meu progenitor, tenho um conhecimento até que razoável sobre a mesma. Não sei, no entanto, se esse conhecimento é razoável o bastante para fazer uma análise dos filmes antigos com este mais novo episódio que acaba de chegar aos cinemas do mundo todo, mas enfim, vamos arriscar e vê no que dá.
Ficha Técnica:
Título Original: Star Trek
Gênero: Ficção Científica
Tempo de Duração: 126 minutos
Ano de Lançamento: 2009
Site Oficial: http://www.startrekmovie.com
Países de Origem: Estados Unidos da América e Alemanha
Direção: J.J. Abrams
Roteiro: Alex Kurtzman e Roberto Orci, baseado em série de TV criada por Gene Roddenberry
Elenco: Chris Pine (James Tiberious Kirk), Zachary Quinto (Spock), Leonard Nimoy (Spock Prime), Eric Bana (Nero), Bruce Greenwood (Capitão Christopher Pike), Karl Urban (Dr. Leonard “Bones” McCoy), Zoe Saldana (Nyota Uhura), Simon Pegg (Scotty), John Cho (Hikaru Sulu), Anton Yelchin (Pavel Chekov), Ben Cross (Sarek), Winona Ryder (Amanda Grayson), Chris Hernsworth (George Kirk), Jennifer Morrison (Winona Kirk), Rachel Nichols (Gaila), Faran Tahir (Capitão Robau), Clifton Collins Jr. (Ayel), Antonio Elias (Oficial Pitts), Freda Foh Shen (Kelvin Helmsman), Jimmy Bennet (James T. Kirk – jovem), Jacob Kogan (Spock – jovem), Tyler Perry (Almirante Richard Barnett), Ben Biswagner (Almirante James Komack) e Akiva Goldsman (Integrante do Conselho Vulcano).

Sinopse: James Tiberious Kirk (Chris Pine) é um jovem rebelde inconformado com a morte de seu pai. Certo dia, recebe convite para fazer parte da formação de novos cadetes para a Frota Estelar. Uma vez lá conhece Spock (Zachary Quinto), um vulcano que optou por deixar seu planeta porque é metade humano e discordava do preconceito. Durante o treinamento, e também na primeira missão, os dois vivenciam novas experiências provocadas por seus estilos diametralmente opostos. Assim, Spock, o cerebral, e Kirk, o passional, viverão uma grande aventura ao lado de outros tradicionais integrantes da tripulação da U.S.S. Enterprise, a mais avançada nave espacial da época. (Roberto Cunha).

Fonte Sinopse: Adoro Cinema

Star Trek – Trailer:

Crítica:

Há muito tempo (muito tempo mesmo) citei que J. J. Abrams era uma das poucas falhas contidas no ótimo “Missão: Impossível 3”. Ao contrário de boa parte da crítica especializada, a “handcam” empregada pelo diretor não me agradara nem um pouco, haja visto o ritmo atordoantemente frenético que a mesma havia conferido ao filme que, sob mãos mais seguras e menos histéricas, nos seria capaz de proporcionar sequências de ação mais aproveitavelmente divertidas.

Em “Star Trek” digo justamente o contrário. O mérito da produção em questão é, acima de tudo, de J. J. Abrams. Desta vez o cineasta (que é também o responsável pela série televisava “Lost”, que eu nunca assisti e, sabe-se lá o porquê, nem pretendo faze-lo) adota uma direção mais segura e se mostra responsável por um trabalho de câmeras muito mais consistente do que o que havia realizado no longa estrelado pelo superestimado Tom Cruise.

E não apenas o modo como filma as cenas de ação ou as técnicas que adota para movimentar a sua câmera fazem deste seu mais novo trabalho algo digno dos mais sinceros elogios. Abrams destaca-se também ao utilizar algumas perspicácias que conferem à sua direção a aparência de ter sido realizada por um cineasta bem mais experiente. É o caso de uma cena onde um personagem menciona: “___ Aprendi isso com um amigo meu” e, logo em seguida, o diretor retira a câmera do foco que havia feito em cima do interlocutor e realiza um curto e rápido, embora suave, “travelling” no personagem o qual ele se referia. Sem necessitar dizer uma única palavra, já percebemos que o tal personagem era a pessoa a qual o interlocutor se referia. É como sempre dizem: uma imagem vale mais do que mil palavras e, no caso do Cinema, uma imagem competentemente filmada passa a valer muito mais.

Todavia, devo ressaltar que a grande maioria do público que vai aos cinemas contemplar “Star Trek” está, na verdade, ansiando buscar uma sessão nostalgia ao lado de personagens marcantes como o Capitão Kirk, o Sr. Sulu, o Dr. McCoy e, é claro, o Sr. Spok, e não testemunhar o trabalho de Abrams como diretor. A pergunta que fica no ar então é a seguinte: “o filme faz jus à clássica saga cinematográfica iniciada em 1.979 e, principalmente, à ainda mais clássica série televisiva que levava os seus respectivos apreciadores à loucura durante os anos 1.960?”. A resposta para esta questão é, como não poderia deixar de ser: depende.

Quando o filme em questão se inicia, logo sentimos falta da marcante música-tema que, ao contrário dos episódios anteriores, não abre este longa, o que nos resulta em uma certa frustração. Tentamos esquecer esta pequena grande falha e, conforme a projeção avança, percebemos que estamos diante de uma trama bastante complexa e intrincada, mas não há como deixarmos de reparar em dois pontos em especial. O primeiro é que “Star Trek” conta com cenas de ação em excesso e muitas vezes se esquece de parar para explorar os seus personagens ou a sua própria estória. O segundo apontamento é que a trama, apesar de abstrusa, não atinge o mesmo grau de complexidade que muitos episódios da série televisava, ou até mesmo da série cinematográfica (como “Jornada nas Estrelas II: A Ira de Khan” (só uma curiosidade: é estranho notar que “Jornada nas Estrelas” é uma das poucas franquias cinematográficas onde o episódio original não apenas não é o melhor, como também é um dos piores), apenas para citar um exemplo) conseguiam atingir.

Mas em momento algum, no entanto, temos a sensação de que estamos assistindo a um filme “hollywoodiano” qualquer. Tampouco posso afirmar que “Star Trek” não resgata a magia do seriado que lhe deu origem. A música-tema original faz falta? E como. O excesso de cenas de ação soa estranho para um filme que carrega consigo a “marca” “Jornada nas Estrelas”? Certamente soa. A trama conta com mais ação do que ficção científica propriamente dita? Não resta uma dúvida sequer quanto a isso. Mas ainda assim o filme encontra-se em um patamar muito superior a das produções atualmente padronizadas por Hollywood.

Se a indústria cinematográfica vem, cada vez mais, insultando a nossa inteligência com baboseiras do naipe de “Velozes & Furiosos 4”, “Star Trek” aparece como um colírio para os nossos olhos e, ao invés de zombar do atilamento de seu público alvo, realiza uma trama que, apesar de não ser tão complexa quanto o esperado, é muitíssimo bem vinculada, muitíssimo bem arquitetada e aborda de forma satisfatória questões físicas, astrofísicas e científicas.

“Star Trek” provavelmente não é a obra-prima que os fãs tanto esperavam, mas ainda assim revela-se uma agradabilíssima sessão nostálgica e faz jus aos mais clássicos momentos de toda a saga televisiva e cinematográfica que marcou uma geração inteira de adolescentes (que agora são nossos pais). A trama é suficientemente interessante, apesar de não ser tão complexa quanto o esperado; o elenco cumpre muito bem as suas funções; as cenas de ação, apesar de excessivas, são eletrizantes e extremamente bem dirigidas por J. J. Abrams, que realiza aqui o seu melhor trabalho direcionado à sétima Arte.

E se encerro no clichê, é porque não vejo outro modo de fazê-lo, mas enfim: “vida longa e próspera à nova investida cinematográfica da franquia “Star Trek”.”.

Avaliação Final: 8,0 na escala de 10,0.

Festival de Cinema de Cannes – Vencedores

Chega de poemas pseudo-intelectuais destrutivos e autodestrutivos. Voltemos, felizmente (ou não), a falar de Cinema. Saiu ontem (pois é, estou publicando esta matéria com atraso) os vencedores do Festival de Cinema de Cannes, conhecido apenas como Festival de Cannes (que, diga-se de passagem, é mil vezes mais justo e confiável que o Oscar®), onde o prêmio máximo é a Palma de Ouro®. O grande vencedor foi o filme do polêmico Michael Haneke (“Violência Gratuita”), Das Weisse Band (e não me perguntem a tradução literal disso, pois o meu alemão ainda é fraco, ou como dizem naquele idioma: “Mein Deutsch ist noch schwach”), um drama de guerra adaptado em uma vila rural da Alemanha pré-Primeira Guerra Mundial. Vamos aos demais filmes e aos seus respectivos prêmios:

Palma de Ouro
Das Weisse Band, de Michael Haneke

Grande Prêmio
Un Prophète, de Jacques Audiard

Melhor Direção
Brillante Mendoza por Kinatay

Melhor Roteiro
Spring Fever, de Lou Ye

Camera d´Or
Warwick Thornton por Samson and Delilah

Camera d´Or – Menção Especial
Ajami, de Scandar Copti e Yaron Shani

Prêmio do Júri
Fish Tank, de Andrea Arnold
Bakjwi, de Park Chan-Wook

Melhor Atriz
Charlotte Gainsbourg por Anticristo

Melhor Ator

Christoph Waltz por Bastardos Inglórios

Palma de Ouro – Melhor Curta
Arena, de João Salaviza

Menções Especiais – Curtas
The Six Dolar Fifty Man, de Mark Albiston e Louis Sutherland

Un Certain Regard – Prêmio Principal
Kynodontas, de Yorgos Lanthimos

Un Certain Regard – Prêmio do Júri
Police, Adjective, de Corneliu Porumboiu

Un Certain Regard – Prêmio Especial
No One Knows About Persian Cats, de Bahman Ghobadi, e Father of My Children, de Mia Hansen-Love

Cinefondation
1º lugar: Baba, de Zuzana Kirchnerova-Spidlova
2º lugar: Goodbye, de Song Fang
3º lugar: Diploma, de Yaelle Kayam, e Don´t Step Out of the House, de Jo Sung-hee

Prêmio Especial pelo Conjunto da Obra
Alain Resnais

Fonte: Cinema em Cena