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Transformers 2 – A Vingança dos Derrotados – * de *****

Mencionei ontem no Twitter do Cine-Phylum que não estava nem um pouco afim de ir aos cinemas conferir a pré-estréia deste “Transformers – A Vingança dos Derrotados”. Não, essa minha falta de vontade em assistir ao filme não estava diretamente ligada à qualidade (ou a falta de) do mesmo, mas sim ao fato de a cópia que estava sendo exibida nos cinemas de minha cidade ser dublada. Sinceramente, não creio que seja nem um pouco ética esta minha atitude de criticar um filme dublado. Por quê? Porque não julgo um filme dublado uma obra cinematográfica original. Assistir a uma produção com o som original é extremamente importante para que possamos avaliar a atuação do elenco, já que o tom de voz que os atores emprega para compor os seus respectivos personagens é mais do que importante para o resultado final da obra. Destarte, peço para que o leitor leve em conta que, quando eu mencionar “atuações” na crítica a seguir, estarei me referindo à expressividade e ao carisma dos atores, descartando então o tom de voz dos mesmos.

Ficha Técnica:

Título Original: Transformers: Revenge of the Fallen.

Gênero: Ação.
Tempo de Duração:
147 minutos.

Ano de Lançamento: 2009.

Site Oficial: www.transformersmovie.com

País de Origem: Estados Unidos da América.

Direção: Michael Bay.

Roteiro: Ehren Kruger, Roberto Orci e Alex Kurtzman.

Elenco: Shia LaBeouf (Sam Witwicky), Megan Fox (Mikaela Banes), Hugo Weaving (Megatron – voz), Josh Duhamel (Capitão Lennox), John Turturro (Agente Simmons / Jetfire – voz), Isabel Lucas (Alice), Tyrese Gibson (Sargento Epps), Matthew Marsden (Graham), Samantha Smith (Sarah Lennox), Glenn Morshower (General Morshower), Ramon Rodriguez (Leo Spitz), Kevin Dunn (Ron Witwicky), Julie White (Judy Witwicky), Michael Papajohn (Cal), John Benjamin Hickey (Theodore Galloway), Rainn Wilson (Professor), Frank Welker (Soundwave – voz), Peter Cullen (Optimus Prime – voz), Mark Ryan (Bumblebee – voz), Darius McCrary (Jazz – voz), Reno Wilson (Frenzy – voz), Robert Foxworth (Ratchet – voz), Jess Harnell (Ironhide / Barricade – voz) e Mike Patton (Mixmaster – voz).

Sinopse: Dois anos após a batalha entre os Autobots e os Decepticons, Sam Witwicky (Shia LaBeouf) enfrenta a ansiedade de entrar na faculdade. Isto significa que ele terá que morar separado de seus pais, Judy (Julie White) e Ron (Kevin Dunn), deixar a namorada Mikaela Banes (Megan Fox) e ainda explicar a situação ao seu amigo e protetor Bumblebee, já que pretende levar uma vida normal de agora em diante. Paralelamente o governo desativa o Setor 7, resultando na demissão do agente Simmons (John Turturro). Em seu lugar é criada a NEST, uma agência comandada pelo capitão Lennox (Josh Duhamel) e o sargento Epps (Tyrese Gibson), que trabalha em conjunto com os Autobots. Porém a NEST enfrenta a resistência de Theodore Galloway (John Benjamin Hickey), o consultor da segurança nacional, que a considera supérflua.

Fonte Sinopse: Adoro Cinema.

Transformers: Revenge of the Fallen – Trailer:

Crítica:

Começarei esta crítica praticamente da mesma forma que comecei a de “Anjos & Demônios”. Nunca assisti ao primeiro filme da franquia “Transformers”, nunca assisti ao desenho que passava na televisão (havia realmente um desenho animado que era exibido na TV? Juro que não me lembro) e nunca brinquei com os bonecos (cuja alcunha atribuída pela criançada na época era: “hóminhos”) dos personagens principais da série. E querem saber o que é pior? Nunca havia nem ao menos ouvido falar nestes tais “Transformers” antes do primeiro episódio da série ter sido lançado nos cinemas do mundo todo no ano de 2.007, e olha que sou da geração de 1.980 (nasci aos 17 de dezembro de 1.983), justamente quando os tais robôs alienígenas estavam no auge.

Mas o que seria eu então? Uma criança anormal? De forma alguma. Acontece que durante a minha infância me preocupava muito mais em assistir a desenhos como “Tom & Jerry”, “Faísca & Fumaça”, “Papa-Léguas”, “Tartarugas Ninja” e “Caverna do Dragão” a assistir os “Transformers” da vida. Logo, nem ao menos tomei ciência da existência do desenho animado durante os meus dias de garoto. Talvez seja justamente por este motivo que fui ao cinema local com toda a frieza que me é inerente. Não estava tão entusiasmado como alguns fãs que ali se encontravam estavam (inclusive, havia muitos “quarentões” na sessão, e sem a companhia dos filhos. Será que tratavam-se de nerds fãs incondicionais da série quando tinham vinte anos de idade? Pode apostar que sim), mas também não estava nem um pouco influenciado pelas críticas negativas que havia lido sobre o primeiro filme.

A sessão começa. Vejo-me sentado novamente na poltrona do meio da sala. Uns robôs, sem mais nem menos, aparecem na pré-história e saem matando seres humanos a torta e a direita, sem quaisquer propósitos pré-estabelecidos. E reside justamente aí a minha maior repugnância para com os filmes que envolvem extra-terrestres. Oras, por que um grupo de alienígenas iria almejar arriscar a própria espécie a fim de dominar um planeta como este (que os próprios robôs, durante muitos momentos do filme, afirmam ser um lixo de planeta)? E por que os “grandalhões” malvados não exterminaram a raça humana e não dominaram o mundo, quando era mais fácil para eles o fazer durante a pré-história? Seria pelo fato de os Autobots (os “mocinhos” da vez) terem impedido? Mas por que cargas d’água um grupo de robôs alienígenas se preocuparia em salvar a nossa espécie?

Francamente, não sei dizer se as questões por mim levantadas acima são furos de roteiro ou fruto de minha ignorância no que diz respeito à franquia “Transformers”, mas caso seja a segunda opção (o que, creio eu, é bem provável), não tenho culpa se o filme não explicou isso durante a sua projeção. Ops… pára tudo, pára tudo (lembram-se do imbecil do João Kleber?)… Acabei de confirmar com o meu pai (e vejam bem, o meu pai sabe muito mais da série do que eu) que os Decepticons (os vilões da vez) na verdade fugiram do planeta natal deles e vieram se esconder na Terra e os Autobots vieram os perseguir. Foi isso mesmo o que aconteceu (pergunto a alguém que tenha assistido ao primeiro filme ou aos episódios da série televisiva, uma vez que o meu pai confessou não ter muita certeza do que estava falando)? Enfim, caso esteja completamente errado e vocês estejam rindo de minha cara (e da de meu progenitor também), novamente insisto que não é culpa minha que um filme com duas horas e vinte minutos de projeção pare um segundo sequer para explicar e/ou relembrar isso.

E falando em projeção, que longa extenso este, não? Sejamos honestos, duas horas e vinte minutos de duração para isso! Para uma estórinha mal contada destas, que não tem nem ao menos a dignidade de se valer por si só (sim, pois como havia dito, o fato de não ter assistido ao episódio anterior faz com que eu nada saiba sobre os reias intentos dos Decepticons aqui na Terra) e depende completamente do episódio anterior para funcionar! Eu me pergunto: o que passava pela cabeça de Michael Bay enquanto filmava tantas cenas altamente dispensáveis para o resultado final da obra? Por que não dar pequenas dicas a espectadores desavisados (como era o meu caso) sobre o real motivo do embate entre Autobots e Decepticons? Afinal de contas, “Transformers 2 – A Vingança dos Derrotados”, apesar de ser uma continuação, é (ao menos era para ser) um episódio extremamente independente do filme que lhe deu origem, ao contrário de “Kill Bill – Volume II”, por exemplo, onde deveríamos assistir ao primeiro longa metragem para entender a sua continuação, já que ambos formam um único filme.

Entretanto, mesmo que recomeçasse esta crítica agora, neste exato momento. Mesmo que soubesse todas as respostas para as perguntas que fiz. Mesmo que fosse o maior entusiasta e conhecedor de “Transformers” da face da Terra, teria achado o filme ruim.

Sim, “Transformers 2…” é ruim por si só, e sabem quem é o maior responsável por isso? Um doce para quem acertar. Claro, Michael Bay, o alvo favorito (ao lado do tão horrendo quanto Uwe Boll) dos críticos de Cinema do mundo todo. O Ed Wood de nossa geração dá sinais de sua incompetência logo no início do filme quando, ao realizar um rápido travelling ou um singelo afastamento de câmera, treme a mesma como se estivesse segurando uma britadeira ligada com a mão oposta. E o que dizer então das exageradas rotações de câmera de cento e oitenta graus quando filma um momento romântico do casal de protagonistas (ele bem que poderia ter aprendido a fazer decentes rotações com Christopher Nolan em “Batman – O Caveleiro das Trevas”)?

E quanto às demais características que sempre marcam, do modo mais negativo o possível, o trabalho do cineasta (gargalhadas pela palavra “cineasta”)? Da mesma forma que constatamos em muitos outros de seus filmes, em “Transformers 2…” Bay aplica inúmeras tomadas em slow motion enquanto mostra os protagonistas fugindo de uma recente explosão, gira a sua câmera “desenhando” uma esfera completa a fim de filmar porta-aviões estadunidenses e, é claro, faz questão de realizar closes de inúmeros soldados caminhando lentamente com aquele ar blasé, típico dos fracassados militares oriundos da Terra do Tio Sam.

Ah, e é claro que não podemos nos esquecer de mencionar o oportunismo (também característico do diretor) adotado com a finalidade de explorar todos os atributos das atrizes símbolos sexuais que trabalham com ele. Para se ter uma idéia, Megan Fox entra em cena montada em uma moto, inclinada para frente, com um short jeans excessivamente minúsculo e a bunda levantada bem ao alto (Está bem, confesso, meu lado pessoal adorou essa cena). E já que mencionei o (suculento) traseiro da atriz, o leitor tem alguma dúvida de que o diretor explora ao máximo esta parte do corpo dela? Basta dizer que, quando a mesma não é exibida com uma blusa deveras decotada e que mostra boa parte de seus seios, Bay faz questão de colocá-la em cena de um modo que a sua câmera consiga filmar os quadris da moça sendo fortemente apertados por uma calça branca extremamente justa (aliás, ela, assim como todos os outros personagens, passa o filme todo com a mesma roupa. Que figurino mais pobre esse, viu!).

E sei que já me estendi demais nesta crítica, principalmente para falar mal de Michael Bay, mas o leitor teria a bondade de me conceder mais uns minutinhos de seu tempo para criticar ainda mais o diretor (fazer o quê? O cara é um desastre em forma de cineasta)? Não bastassem todas as falhas cometidas pelo diretor, ele ainda tem a pachorra de empregar uma trilha-sonora visivelmente maniqueísta para conferir ao longa a sensibilidade que não tem competência para o fazer.

Mas vamos parar por aqui, a crítica já foi muito além do que deveria ter ido.

Em suma, “Transformers 2 – A Vingança dos Derrotados” é o típico filme de ação comercial proveniente dos grandes estúdios de Hollywood: divertido, cheio de adrenalina e repleto de efeitos especiais (visuais e sonoros) dignos de fazer cair o queixo, mas que jamais conseguem maquiar as terríveis falhas que são exibidas durante os seus desnecessariamente longos duzentos e vinte minutos de duração, variando desde a trama apenas razoável, passando pelas atuações nada convincentes por parte de todo o elenco, pelos alívios cômicos frustrantes, e pela falta de carisma dos personagens principais, encerrando-se no pavoroso trabalho de direção. Enfim, segue o estereótipo das obras cuja direção é assinada por um dos maiores engodos do Cinema nos últimos anos: Michael Bay.

Obs.: É impressão minha ou o personagem Leo (que nem ao menos diz a que veio no filme), próximo ao desfecho do longa, é adormecido com um choque em uma cena e, logo na outra, aparece acordado e agindo normalmente como se nada houvesse acontecido? É Sr. Bay, parece que o senhor cometeu um dos erros de continuidade mais ridículos da história do Cinema, o que permite com que possamos lhe atribuir o título de Ed Wood dos anos 1.990 e 2.000.

Avaliação Final: 3,5 na escala de 10,0.

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Glória Feita de Sangue – ***** de *****

Já fazia muito tempo, muito tempo mesmo, que eu não escrevia sobre um filme do mestre Stanley Kubrick (o maior ícone da história do Cinema, a meu ver) aqui no Cine-Phylum (a última vez foi quando comentei sobre o excelentíssimo “Barry Lyndon”), logo, decidi que era hora de voltar a faze-lo. Iria optar por escrever sobre “2001 – Uma Odisséia no Espaço” ou “Laranja Mecânica”, mas a verdade é que o meu fanatismo por ambos os filmes é tão gigantesco que conclui ser impossível exprimir a minha opinião em menos de 3.000 palavras de texto. Decidi então que o correto seria escrever sobre uma das poucas obras do diretor a que ainda não havia assistido. Meu dedo apontou para este “Glória Feita de Sangue” que, já de cara, revelou-se o meu terceiro ‘Kubrick’ predileto, conforme poderemos ver na crítica logo mais abaixo.

Ficha Técnica:

Título Original: Paths of Glory.

Gênero: Guerra.
Tempo de Duração: 87 minutos.

Ano de Lançamento: 1957.

País de Origem: Estados Unidos da América.

Direção: Stanley Kubrick.

Roteiro: Stanley Kubrick, Jim Thompson e Calder Willingham, baseado em livro de Humphrey Cobb.

Elenco: Kirk Douglas (Coronel Dax), Ralph Meeker (Phillip Paris), Adolphe Menjou (General George Broulard), George Macready (General Paul Mireau), Bert Freed (Sargento Boulanger), Kem Dibbs (Recruta Lejeune), Timothy Carey (Recruta Maurice Ferol), Wayne Morris (Tenente Roget), Richard Anderson (Major Saint-Auban), Joe Turkel (Recruta Pierre Arnaud), Peter Capell (Juiz da Corte Marcial) e Emile Meyer (Padre Dupree).

Sinopse: Em 1916, durante a Primeira Guerra Mundial, Mireau (George Meeker), um general francês, ordena um ataque suicida e como nem todos os seus soldados puderam se lançar ao ataque ele exige que sua artilharia ataque as próprias trincheiras. Mas não é obedecido neste pedido absurdo, então resolve pedir o julgamento e a execução de todo o regimento por se comportar covardemente no campo de batalha e assim justificar o fracasso de sua estratégia militar. Depois concorda que sejam cem soldados e finalmente é decido que três soldados serão escolhidos para servirem de exemplo, mas o coronel Dax (Kirk Douglas) não concorda e decide interceder de todas as formas para tentar suspender esta insana decisão.


Fonte Sinopse: Adoro Cinema.


Paths of Glory – Trailer:


Crítica:


Qual é o real valor da glória? Pode ser tido como palatável o sacrifício de inúmeros homens em nome da glória de um só? Quantas vidas justificam a aquisição de uma estrela condecorativa? Até onde a vaidade de um único homem pode ir para conseguir marcar o seu nome na história de uma nação? É pertinente que, para tal, o mesmo se veja no direito de incumbir um grupo de militares a realizar uma missão que, na melhor das hipóteses, irá resultar na perda de mais da metade do batalhão?


Indagações como as supracitadas cruzam as nossas mentes a todo o instante enquanto assistimos à primeira parte de “Glória Feita de Sangue”, o sexto filme de Stanley Kubrick e o terceiro de sua carreira a ter o respaldo e o prestígio da crítica internacional. Até onde a ganância de um homem pode ir? Quantos patriarcas devem deixar as suas famílias desamparadas a fim de sustentar a vaidade de uma minoria? Qual é o limite da glória (se é que existe algum limite para a mesma)?


Todavia, o mais curioso desta etapa inicial de “Glória Feita de Sangue” reside na maleabilidade do roteiro em tornar compatível a trama diegética com os nossos respectivos cotidianos. Assim como estamos acostumados a presenciar em nossas vidas profissionais, percebemos que em um batalhão militar há também as costumeiras injustiças cometidas por pessoas que não conseguem distinguir o lado pessoal do lado profissional. Da mesma forma que nos empregos convencionais temos de lidar com bajuladores, colegas falsos e hipócritas, picuinhas, e superiores que prejudicam os seus subordinados pelo simples fato de nutrirem alguma intriga pessoal para com os mesmos, os recrutas de um batalhão parecem enfrentar as mesmíssimas situações, mas com uma grande diferença: aqui, se por algum motivo você não agradar a um superior, a pena máxima não é uma reles demissão, mas sim a morte da maneira mais direta o possível.


E não bastasse o filme abordar tantas questões primordiais, ele ainda consegue a façanha de ir além. Novamente passamos a tecer analogias em cima das experiências vivenciadas por soldados quando nos vemos diante de um tribunal militar. É fato que alguém deve ser julgado e condenado pelo previsível insucesso de uma missão, mas quem? A pessoa que organizou esta missão? Oras, quantas vezes você já viu o seu chefe ser responsabilizado pelo fracasso em uma tarefa? Pois é, a culpa sempre cai sobre o mais fraco e em “Glória Feita de Sangue” a estória não poderia acontecer de outra maneira.


É justamente quando percebemos que três humildes soldados deverão responder pela pena máxima imposta através de corte marcial, que o filme atinge o seu ápice. A obra, que aparentava não conseguir ser melhor do que já estava sendo durante a sua primeira metade, passa a ganhar um tratamento ainda mais primoroso. Não só o Coronel Dax (magistralmente encarnado por um Kirk Douglas frio e desesperançoso) ganha destaque aqui (conforme vinha acontecendo até então), como também os recrutas Lejeune (Kem Dibbs) e Maurice (Timothy Carey, na melhor atuação do filme) e o Sargento Boulanger (Bert Freed).


Acompanhar de perto a angústia dos três condenados é algo ainda mais fascinante do que assistirmos à explosiva batalha travada no início do longa ou testemunharmos às injustiças pelas quais os recrutas passam. À medida que vemos aqueles três pobres homens pagando por um erro que não cometeram, vários sentimentos passam a nos atormentar: bem como a agonia, a injustiça, a compaixão e a pena pelos mesmos, mas ainda assim, nenhum destes sentimentos martela tanto as nossas mentes quanto a indignação que passamos pela hipocrisia e desonestidade que somos obrigados a tomar parte naquela exata ocasião.


Como deixarmos de partilhar também com os sentimentos de Dax, que utiliza-se de todas as atribuições legais o possível para fazer justiça e impedir que os companheiros percam as suas vidas, mas percebe que, quanto mais rápido passa o tempo, menos chances terá de derrotar o sistema interno criado pelo próprio general, que parece ser extremamente desconexo com as regras gerais adotadas no país? A estória avança, Dax entra em profunda angustia ao notar a sua própria incapacidade, os condenados passam a questionar as suas vidas e a existência de Deus, a agonia aumenta cada vez mais e, enquanto o filme não tem o seu definitivo desfecho, nós, espectadores, roemos as unhas de tensão e, após o término da sessão, a perturbação não diminui nem um pouco, muito pelo contrário, só aumenta.


Mas é claro que, por mais angustiante que o roteiro de “Glória Feita de Sangue” seja, o filme não teria obtido o mesmo êxito não fosse o trabalho de Stanley Kubrick. Mais do que meramente empregar várias técnicas de direção a fim de tornar o filme mais rico (e aqui ele adota o uso de travellings, close in, close out e muitos outros elementos que enriquecem ainda mais a experiência cinematográfica), o cineasta (que é tido como um dos maiores da história da sétima Arte e é, disparado, o meu predileto), mesmo fazendo uso de uma direção demasiadamente fria como de praxe, confere à obra toda a sensibilidade necessária para que a mesma funcione corretamente bem.


Repare na maneira como Kubrick opta por filmar o julgamento dos recrutas, por exemplo. O diretor cria um plano de modo com que a sala aparente ser enorme e silenciosa, aumentando ainda mais a amargura que a cena, por si só, já nos transmitiria. O modo como Stanley retrata as possíveis últimas horas de vida dos recrutas também é fenomenal e extremamente introspectiva. Francamente, creio que nem mesmo Kurosawa em “Rashomon”, Lumet em “12 Homens e Uma Sentença” e Bergman em “O Sétimo Selo” e “Gritos & Sussurros” se mostraram capazes de fazer um estudo tão depressivo da angustia pré-morte (ou da concreta possibilidade desta) quanto Kubrick o fez neste filme.


Glória Feita de Sangue” é, além de um dos melhores dramas de guerra já feitos, uma obra-prima atemporal e introspectiva que certamente figura entre os mais importantes filmes já feitos para o Cinema.


Duas décadas e meia mais tarde, Stanley Kubrick voltaria a flertar com o gênero guerra no clássico “Nascido Para Matar”, mas não restam dúvidas de que o peso dramático inserido naquele filme não chega aos pés desta obra-prima magistral lançada comercialmente em 1.957.


Avaliação Final: 10,0 na escala de 10,0.

O Falcão Maltês – ***** de *****

Assisti a “O Falcão Maltês” pela primeira vez no ano de 2.000, quando tinha apenas 16 anos, e mesmo não sendo um grande fã de filmes antigos naquela época, havia adorado o filme de John Huston. Não sei se fora necessariamente a trama complexa e bem bolada que me chamou atenção ou o personagem de Humphrey Bogart, com um charme e um carisma de fazer inveja a qualquer James Bond. Passados nove anos decidi assistir a “Acossado” de Jean-Luc Godard e logo nos primeiros minutos de projeção virei fã incondicional do filme francês, onde um dos destaques principais fica com o protagonista Michel, claramente influenciado pelo Sam Spade de Bogart. Fiquei tanto com o filme de Godard quanto com o filme de Huston no cabeça e, nesta semana, pude matar tal ansiedade quando, surpreendentemente, encontrei o DVD de “O Falcão Maltês”. Não pensei duas vezes, loquei o filme e trouxe para casa, onde poderia assisti-lo o quanto antes. O resultado é que continuo adorando a obra-prima mais influente do Cinema Noir.


Ficha Técnica:
Título Original: The Maltese Falcon
Gênero: Suspense
Tempo de Duração: 100 minutos
Ano de Lançamento (EUA):
1941
Direção: John Huston
Roteiro: John Huston, baseado em livro de Dashiell Hammett
Elenco: Humphrey Bogart (Sam Spade), Mary Astor (Brigid O’Shaughnessy), Gladys George (Iva Archer), Peter Lorre (Joel Cairo), Barton MacLane (Detetive Dundy), Lee Patrick (Effie Perine), Sydney Greenstreet (Kasper Gutman), Ward Bond (Detetive Tom Polhaus), Jerome Cowan (Miles Archer) e Elisha Cook Jr. (Wilmer Cook).


Sinopse: Um detetive particular (Humphrey Bogart) é procurado por uma mulher misteriosa (Mary Astor), que alega estar sendo ameaçada. Mas tanto o seu perseguidor quanto o homem encarregado de protegê-la aparecem mortos e tudo gira em torno de uma estátua de falcão de valor incalculável.


The Maltese Falcon – Trailer:


Crítica:

Quando falamos sobre “O Falcão Maltês” (conhecido também como “Relíquia Macabra”, que nada mais é do que um título marqueteiro e inconveniente) logo temos certeza de dois pontos extraordinários: o primeiro é que o filme trata-se de um dos dois mais importantes exemplares da era noir do Cinema (concorre ao posto de “mais importante” diretamente com o perfeito “Crepúsculo dos Deuses” de Billy Wilder) e o segundo é que a obra em questão trata-se de um dos mais admiráveis filmes da história da sétima Arte, falando em um contexto geral.

Tido pela grande maioria dos críticos e cinéfilos do mundo todo como a obra-prima máxima do consagrado cineasta John Huston (alguns ainda afirmam ser “O Tesouro de Sierra Madre”, “Uma Aventura na África”. “Moulin Rouge (1952)” ou “O Homem Que Queria Ser Rei”, mas, ao menos desta vez, concordo com a opinião da maioria), o longa tem como maior atrativo a atuação de Humphrey Bogart, que transforma o seu Sam Spade em um dos personagens mais marcantes e inesquecíveis da história da Sétima Arte, seja pelo tom de voz inigualável empregado pelo ator (que também o fazia excelentemente bem no sensacional “Casablanca”), seja pelos inolvidáveis maneirismos utilizados pelo astro hollywoodiano.

Spade entra em cena através de uma clássica sequência onde, sentado atrás de uma mesa de escritório e vestindo um chapéu que quase lhe cobre os olhos por inteiro, enrola um cigarro e o fuma enquanto atende uma mulher formalmente trajada. A composição de Bogart é praticamente perfeita, seu personagem lhe cai tão bem quanto uma luva, e o ator consegue, com maestria, transformar o protagonista em um sujeito ainda mais cafajeste do que ele já é por si só. Longe de aparentar ser o típico herói de filmes deste gênero, Spade revela-se um sujeito moralmente incorreto e dotado de atitudes imprevisíveis (“___ Você é o homem mais imprevisível que já conheci.” ___ Menciona Brigid O’Shaughnessy em um determinado momento do filme), que não se vê capaz de esconder a sua ganância pelo dinheiro (nisso, o seu Spade lembra um pouco o seu Dobbs, só que em doses de ambição muito mais homeopáticas) e, não bastasse isso, tem um caso de amor com a esposa de seu sócio que, além de desprezar completamente, não demonstra a menor compaixão quando fica sabendo da morte deste.

As demais figuras que compõem o rol de personagens também seguem a linha do protagonista e, assim como na grande maioria das obras que constituem o subgênero film noir, são todos indivíduos de caráter duvidoso, variando desde a mocinha que se passa por garota meiga, mas na verdade é demasiadamente perigosa, ao vilão que se mostra capaz de sacrificar um grande amigo (que é tido como um filho para ele) a fim de conseguir um objeto extremamente ambicionado por si.

A trama também faz jus aos personagens que a integram e, mesmo aparentando ser um tanto o quanto previsível em alguns poucos momentos, é extremamente bem amarrada e suficientemente interessante e complexa para nos prender a atenção do início ao fim do longa, sem jamais se revelar fadigosa e/ou aborrecedora. Os diálogos, por sua vez, são ágeis, secos, ácidos, ríspidos e dinâmicos, e enriquecem ainda mais o roteiro que já se mostra excepcional se o analisarmos individualmente.

Longe de ser apenas um donairoso e excelente exemplar do gênero cinematográfico suspense-policial, “O Falcão Maltês” merece destaque mormente por ser um dos filmes que mais serviram de inspiração para formar, não somente a Hollywood, mas também o Cinema mundial o qual conhecemos hoje. Entre as películas e cineastas os quais podemos citar que foram direta ou indiretamente influenciados pela obra-prima máxima de John Huston (e leve em conta que este foi o primeiro filme por ele dirigido) estão: “Acossado” de Jean-Luc Godard, “Um Corpo Que Cai” de Alfred Hitchcock, “O Terceiro Homem” de Orson Welles e “Pacto de Sangue” de Billy Wilder. Em outras palavras: se é de seu interesse adquirir um estimável conhecimento em Cinema e, acima de tudo, em Cinema Noir, “O Falcão Maltês” torna-se um filme mais do que mister para tal.

Avaliação Final: 9,0 na escala de 10,0.

Poema – O Cadáver e o Efêmero Peregrino

Outro poema de minha autoria (pois é, disse que iria viciar nisso, não disse?). Este aqui foi baseado totalmente em fatos reais, vivenciados por mim na última noite de sábado (06 de junho de 2009), exceto, é claro, no que diz respeito à carga sobrenatural incluída nesta prosa, que deve ser encarada pelo leitor metaforicamente, e não literalmente ou até mesmo metafisicamente. O que o cadáver do poema vem a representar? Oras, leia e tire as suas próprias conclusões.

O Cadáver e o Efêmero Peregrino, por Daniel Esteves de Barros


Memórias de uma gélida e taciturna madrugada de sábado

Cujo único ruído perceptível aos ouvidos humanos

Provinha do forte vento que relutava contra as árvores

Que os seus galhos balançavam com involuntária ferocidade

O impávido zéfiro castigava o peregrino

Que sem propósito e sem destino, traçava o seu caminho

Sozinho, ele perambulava pelas ermas vias urbanas

Lutando bravamente contra o frigido acoimo hiemal

Não havia um escopo neste seu excêntrico ato

Não havia uma insaciável busca por alvedrio

Não havia uma insaciável busca pelo inaudito

Não havia uma insaciável busca pela fleuma espiritual

Quiçá fosse apenas uma fuga existencial

Quiçá fosse apenas uma retrospecção de alguns de seus momentos infantes

Quiçá fosse apenas uma oportunidade de voltar ao passado

Quiçá fosse apenas uma atitude convulsiva de uma mente perturbada

Fosse o que fosse, aquilo era um desafio

Um repto sugerido a fim de confrontar a si mesmo

Não necessariamente uma busca, e sim uma fuga

Uma escapula do que já não mais lhe confortava

Pensamentos martelavam a cabeça do efêmero andarilho

O calor de tuas mãos não mais me aquece, matutava ele

Não mais violarei vosso nuvioso túmulo

Não mais farei amor contigo neste cemitério da vida

Teus abraços não mais me consolam

Tuas mãos encontram-se cada dia mais álgidas

O esputo de teus lábios carcome a minha carne

A macieza de tua vulva só me causa náuseas

Chega! Não mais relacionar-me-ei contigo

Teu formoso corpo não mais tem a mesma forma

Tua volúpia nada mais é do que a propagação de uma ilusão

De um passado que não mais voltará

Despeço-me de ti, ó minha eterna amada

O teu vulto, antes belo, agora se encontra putrefato

E é com poucas lamúrias e ressalvas que tomo esta decisão

Enterrar-te-ei novamente, para jamais voltar a violar vosso jazigo

Agora deverás descansar em paz

Vossa carne poderá, enfim, ser decomposta pelos vermes

E enquanto busco a magia que compõe a autodestruição

Vejo o teu corpo se esfacelando relutantemente em vosso ataúde

Findam-se os lúgubres e sinistros pensamentos

A despropositada e não alicerçada pequena jornada prossegue

A inclemente ventania ainda rasga-lhe o tecido carnal que lhe compõe o rosto

Corta-lhe a carne, alfineta-lhe a vulnerabilidade corpórea e atinge-lhe a alma

O efêmero andarilho se vê então diante de paredes de concreto

Tudo lhe lembra a infância, mas não mais os bons momentos desta

Os muros estão todos ali, parados, no exato lugar onde estiveram outrora

Nada mudou, tudo se encontra da mesma forma que se encontrara anos atrás

Pessoas se foram, pessoas chegaram, pessoas ali habitaram

E a inexorável passagem do tempo a todos castigou

Mas as residências permaneceram exatamente as mesmas

Com suas raras alterações, sendo a maioria imperceptíveis

Pequenas moradias ganharam adendos

Transformaram-se em lares ligeiramente suntuosos

Mas no saldo final, o peregrino constatou que poucas foram as mudanças

E, em sua maioria, mutações que atingiram um resultado ainda mais negativo

As pessoas sobrevivem, vivenciam semelhantes cotidianos

Transformam os seus pertences, mas não transformam a si mesmas

E os anos que lenta e maçantemente se passam, as acoimam

Mas jamais punem os seus pertences, que a tudo parecem resistir

Suas residências ali se mantêm com obstinada rigidez

Mas as pessoas que as construíram, não mais

Seriam então os seus bens ainda mais fortes e marcantes do que elas mesmas?

Tal questionamento perturba a mente do corriqueiro andarilho

Acabrunhado ainda mais pelo gigantesco e atormentador contraste social

Que pode ser visivelmente notado dentro de um insignificante espaço geográfico

Cuja discrepância vem a nos ser anunciada aos berros e alardes

Pequenas suntuosidades aqui, gradativas adversidades meia quadra abaixo

Tudo isto causa uma excessiva mortificação à alma do andarilho

Que se volta para trás e segue, de cabeça baixa, o seu desconexo rumo

E enquanto vaga pelas ermas e sorumbáticas vias urbanas

Passa a lucubrar e opta por voltar-se ao cemitério da vida

Voltei-me para ti, ó minha eterna amada, diz o peregrino

E o esquife se abre, o cadáver se levanta e uma mão puxa-lhe o braço

O efêmero andarilho é então definitivamente tragado pela terra

E é ali, que para a sua perene felicidade, passará o resto de seus dias

Memórias de uma gélida e taciturna madrugada de sábado

Cujo único ruído perceptível aos ouvidos humanos

Provinha do forte vento que relutava contra as árvores

Que os seus galhos balançavam com involuntária ferocidade

Poema – O Cadáver e o Efêmero Peregrino

Outro poema de minha autoria (pois é, disse que iria viciar nisso, não disse?). Este aqui foi baseado totalmente em fatos reais, vivenciados por mim na última noite de sábado (06 de junho de 2009), exceto, é claro, no que diz respeito à carga sobrenatural incluída nesta prosa, que deve ser encarada pelo leitor metaforicamente, e não literalmente ou até mesmo metafisicamente. O que o cadáver do poema vem a representar? Oras, leia e tire as suas próprias conclusões.

O Cadáver e o Efêmero Peregrino, por Daniel Esteves de Barros


Memórias de uma gélida e taciturna madrugada de sábado

Cujo único ruído perceptível aos ouvidos humanos

Provinha do forte vento que relutava contra as árvores

Que os seus galhos balançavam com involuntária ferocidade

O impávido zéfiro castigava o peregrino

Que sem propósito e sem destino, traçava o seu caminho

Sozinho, ele perambulava pelas ermas vias urbanas

Lutando bravamente contra o frigido acoimo hiemal

Não havia um escopo neste seu excêntrico ato

Não havia uma insaciável busca por alvedrio

Não havia uma insaciável busca pelo inaudito

Não havia uma insaciável busca pela fleuma espiritual

Quiçá fosse apenas uma fuga existencial

Quiçá fosse apenas uma retrospecção de alguns de seus momentos infantes

Quiçá fosse apenas uma oportunidade de voltar ao passado

Quiçá fosse apenas uma atitude convulsiva de uma mente perturbada

Fosse o que fosse, aquilo era um desafio

Um repto sugerido a fim de confrontar a si mesmo

Não necessariamente uma busca, e sim uma fuga

Uma escapula do que já não mais lhe confortava

Pensamentos martelavam a cabeça do efêmero andarilho

O calor de tuas mãos não mais me aquece, matutava ele

Não mais violarei vosso nuvioso túmulo

Não mais farei amor contigo neste cemitério da vida

Teus abraços não mais me consolam

Tuas mãos encontram-se cada dia mais álgidas

O esputo de teus lábios carcome a minha carne

A macieza de tua vulva só me causa náuseas

Chega! Não mais relacionar-me-ei contigo

Teu formoso corpo não mais tem a mesma forma

Tua volúpia nada mais é do que a propagação de uma ilusão

De um passado que não mais voltará

Despeço-me de ti, ó minha eterna amada

O teu vulto, antes belo, agora se encontra putrefato

E é com poucas lamúrias e ressalvas que tomo esta decisão

Enterrar-te-ei novamente, para jamais voltar a violar vosso jazigo

Agora deverás descansar em paz

Vossa carne poderá, enfim, ser decomposta pelos vermes

E enquanto busco a magia que compõe a autodestruição

Vejo o teu corpo se esfacelando relutantemente em vosso ataúde

Findam-se os lúgubres e sinistros pensamentos

A despropositada e não alicerçada pequena jornada prossegue

A inclemente ventania ainda rasga-lhe o tecido carnal que lhe compõe o rosto

Corta-lhe a carne, alfineta-lhe a vulnerabilidade corpórea e atinge-lhe a alma

O efêmero andarilho se vê então diante de paredes de concreto

Tudo lhe lembra a infância, mas não mais os bons momentos desta

Os muros estão todos ali, parados, no exato lugar onde estiveram outrora

Nada mudou, tudo se encontra da mesma forma que se encontrara anos atrás

Pessoas se foram, pessoas chegaram, pessoas ali habitaram

E a inexorável passagem do tempo a todos castigou

Mas as residências permaneceram exatamente as mesmas

Com suas raras alterações, sendo a maioria imperceptíveis

Pequenas moradias ganharam adendos

Transformaram-se em lares ligeiramente suntuosos

Mas no saldo final, o peregrino constatou que poucas foram as mudanças

E, em sua maioria, mutações que atingiram um resultado ainda mais negativo

As pessoas sobrevivem, vivenciam semelhantes cotidianos

Transformam os seus pertences, mas não transformam a si mesmas

E os anos que lenta e maçantemente se passam, as acoimam

Mas jamais punem os seus pertences, que a tudo parecem resistir

Suas residências ali se mantêm com obstinada rigidez

Mas as pessoas que as construíram, não mais

Seriam então os seus bens ainda mais fortes e marcantes do que elas mesmas?

Tal questionamento perturba a mente do corriqueiro andarilho

Acabrunhado ainda mais pelo gigantesco e atormentador contraste social

Que pode ser visivelmente notado dentro de um insignificante espaço geográfico

Cuja discrepância vem a nos ser anunciada aos berros e alardes

Pequenas suntuosidades aqui, gradativas adversidades meia quadra abaixo

Tudo isto causa uma excessiva mortificação à alma do andarilho

Que se volta para trás e segue, de cabeça baixa, o seu desconexo rumo

E enquanto vaga pelas ermas e sorumbáticas vias urbanas

Passa a lucubrar e opta por voltar-se ao cemitério da vida

Voltei-me para ti, ó minha eterna amada, diz o peregrino

E o esquife se abre, o cadáver se levanta e uma mão puxa-lhe o braço

O efêmero andarilho é então definitivamente tragado pela terra

E é ali, que para a sua perene felicidade, passará o resto de seus dias

Memórias de uma gélida e taciturna madrugada de sábado

Cujo único ruído perceptível aos ouvidos humanos

Provinha do forte vento que relutava contra as árvores

Que os seus galhos balançavam com involuntária ferocidade

Poema – A Bruma da Incerteza

Pois é, outro poema. Fazer o quê, não é? Com vocês:

A Bruma da Incerteza, por Daniel Esteves de Barros

Ó pálida fuligem, que paira sobre as nossas vidas
Encobristes os campestres caminhos
Proporcionou-nos o flerte com o desconhecido
Em face de ti nos caem as incertezas
Recalcadas sob o mais belo mistério
Que nos tira a visão concreta do caminho a ser traçado
Mas nos brinda com a possibilidade de encontrar o desconhecido
Aquilo que é novo, aquilo que está por vir

E há algo mais belo do que o misterioso?
O real progenitor da ciência e da arte, segundo Einstein
Vossa emblemática coberta que nos oculta a fatídica obviedade da vida
E que nos dá a esperança para continuarmos buscando a perfeição
Que jamais será alcançada, mas nos atribui o motivo de nossa existência
Traçando caminhos que, por ti, são tão lindamente ocultados
E nos proporcionam os mais embaraçosos questionamentos
Ora bons e instigantes, ora cruéis e perturbadores

Ó pálida fuligem, que a incerteza em nós nos proporciona
É a passos deveras cautelosos que rasgamos vosso véu
Descortinamos vosso conveniente arrimo ao desconhecido
E o concreto sentimento da mais dilatada imprecisão
Finalmente nos atinge por inteiro e faz-nos interrogarmos
O que escondestes tão sigilosamente de nós?
Dai-nos a devida concessão para que possamos amplamente averiguar?
E findarmos se nos escondes algo de bom, de ruim, ou mais do mesmo?

Fim de Semana Especial – Jean Renoir

Resolvi dedicar este fim de semana a assistir a alguns filmes de Jean Renoir, uma vez que o diretor não é só um de meus dez favoritos, como também tem uma contribuição para lá de importante à sétima Arte. Filho do famoso pintor impressionista Pierre-Auguste Renoir (que dentre vários quadros, pintou “Le Moulin de la Galette” e “O Almoço dos Remadores”), Jean foi extremamente subestimado durante a sua época, vindo a fazer sucesso apenas anos mais tarde, quando cineastas como Claude Chabrol, Jean-Luc Godard e François Truffaut involuntariamente criaram a “Nouvelle Vague” e passaram a afirmar que uma de suas maiores (se não a maior) fontes de inspiração havia sido o próprio Jean Renoir. Mas por que o cineasta fora tão subestimado, sendo que o mesmo conta com um leque de qualidades raríssimas em seu trabalho? Talvez porque Jean tivesse uma visão extremamente pessimista da sociedade pré-Segunda Guerra Mundial. Por mais que o sentimento da população européia dos anos 1.920 e 1.930 fosse extremamente ululante, é bem provável que as pessoas almejassem ir ao cinema com o intento de distrair a falta de esperança, e não alimentar a mesma. De uma forma ou de outra, Jean daria a volta por cima e marcaria o seu nome na história da Arte de maneira tão gloriosa quanto (ou quem sabe ainda mais gloriosa) o seu pai o fez, e é por este motivo que dedico estes quatro pequeninos textos a ele.
Tire au Flanc (Tire au Flanc, Comédia, 1.928, França, Jean Renoir) – **** de *****

Os trabalhos de Jean Renoir sempre estão bem à frente de seu tempo, pois neles temas como críticas sociais e a hipocrisia matrimonial são abordadas com grande frequência. “Tire au Flanc”, no entanto, segue na contramão e revela-se uma comédia bastante datada, tanto no que diz respeito à sua trama, como no que diz respeito às abordagens sociais e conjugais as quais traça.
A premissa, por si só, já é bastante interessante e aborda um tema muitíssimo comum na época: a vida no exército. Mas não só este estilo de vida ganha total destaque no filme, como também (e principalmente, diga-se) a abordagem que ele realiza sobre um indivíduo nobre que tem de lidar com o fato de ser um soldado como outro qualquer, já que, no quartel general, a sua posição social pouco importa aos demais cadetes, que aproveitam-se da situação para atazanar o pobre rico rapaz.
Além disso, o longa é bem divertido e conta com alguns momentos bem cômicos, especialmente quando faz o uso de diálogos para tal (sim, o filme é mudo, mas contém aquelas convencionais frases que são escritas sobre uma tela preta a fim de ilustrar as frases que os personagens “dizem”). Como não rir, por exemplo, com dizeres do tipo: “O Tenente estava disposto a arrumar uma noiva para si, independentemente de quem pertencesse tal noiva” (pois é, novamente Renoir aborda o adultério dentro da alta sociedade), “No exército, muitas vezes compensa você ser um completo imbecil, mas deve-se evitar passar dos limites” e “Ele é um perfeito idiota, mas há uma justificativa, ele é um poeta”.
Infelizmente, o mesmo humor que vigora a parte, digamos, “verbal” do longa faz bastante falta na construção do humor físico. Conforme dissera no início desta mini-crítica, “Tire au Flanc” conta com um humor datado. Contudo, não posso entrar em contradição e fugir daquilo que sempre defendi: “uma obra cinematográfica deve ser julgada de sempre acordo com a época a qual a mesma fora produzida”. É fato que muitos críticos fazem o contrário, mas no meu caso, prefiro seguir à risca a minha tese.
Juro que fiz isso e acabei ignorando o fato de que, mostrar pessoas se queimando com o café na mesa de jantar e tropeçando a todo o instante (dentre outras muitas situações exageradas que o filme nos apresenta) é deveras obsoleto. Para falar a verdade, esse tipo de humor, na época, nem antiquado era, muito pelo contrário, era bastante comum. O problema reside mesmo é na artificialidade das situações. O que Charles Chaplin sabia fazer naturalmente, Jean Renoir parece ter um pouco de dificuldade para o fazer.
Mas é como mencionei acima, “Tire au Flanc” é um filme divertido, interessante e que aborda, ainda que de soslaio, críticas sociais e a forte hipocrisia contida nos relacionamentos amorosos formados por membros da classe alta.
Seria óbvio demais mencionar que a direção de Renoir é fantástica e conta com várias técnicas, sobretudo de afastamento (destaque para a cena onde ele acompanha o protagonista adentrando o quartel pela primeira vez. Conforme o poeta avança, a câmera do diretor (que encontra-se de frente para ele) vai se afastando aos poucos) e tomadas aéreas? Seria? Tudo bem, então encerro esta mini-crítica por aqui.

Avaliação Final: 8,0 na escala de 10,0.

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A Cadela (La Chienne, Drama, 1.931, França, Jean Renoir) – ***** de *****

Quando o filme se inicia, a primeira coisa que vemos é um curioso teatro de marionetes onde um dos bonecos nos alerta que o longa a seguir não se tratará de uma trama com heróis e vilões, mas sim de uma estória com pessoas comuns, como você e eu. Para ser sincero, não diria que é necessariamente assim, ao menos durante o início do filme. O protagonsita Maurice Legrand (Michel Simon), por exemplo, segue muito o estereótipo do ‘mocinho’ injustiçado. Legrand é constantemente humilhado pela autoritária (e também caricata, diga-se) esposa Adéle (Magdeleine Bérubet), é motivo de chacota entre os vizinhos e, principalmente, os colegas de trabalho, e, não bastasse isso tudo, ainda envolve-se com uma amante falsa e hipócrita chamada Lulu (Janize Marèze) que lhe tira muito dinheiro e entrega tudo ao namorado Dedé (Georges Flamant), um gigolô de marca maior.
Entretanto, mesmo contendo um caráter excessivamente estóico e sendo um homem de bom coração, Legrand está longe de ser o típico protagonista moralmente correto que o Cinema estava acostumado a presenciar em plena década de 1.930. Assim como a grande maioria dos personagens, o nosso ‘herói’ aqui comete erros imperdoáveis (e se você ainda não assistiu ao filme, sugiro que pare de ler este parágrafo e pule para o próximo), como furtar os cofres da empresa onde trabalha e permitir que um determinado personagem receba uma punição (merecida, diga-se) por um erro que não cometeu.
As demais figuras que compõem a trama também estão longe de seguir o código de conduta moral e todos revelam-se eticamente repugnantes. E é tecendo o caráter destes personagens tartufos e cínicos que o roteiro de André Girard e Jean Renoir explana todo o seu sentimento de pessimismo perante à sociedade da época (e até mesmo a sociedade atual, afinal de contas, os filmes de Renoir sempre estiveram bem a frente de seu tempo, uma vez que inspiraram Chabrol a criar a “Nouvelle Vague” no final dos anos 1.950), onde notamos que até as pessoas mais aparentemente dignas se mostram dissimuladas quando veem (sem circunflexo) uma corpórea oportunidade de prosperar na vida às custas de outras pessoas.
O grande trunfo de “A Cadela”, por sua vez, reside na direção de Renoir. Aqui, um dos mais brilhantes cineastas de todos os tempos, não só se destaca nas técnicas de afastamento de câmera, criação de ângulos perfeitos (a maior prova disso é uma cena onde o diretor posiciona sua câmera em um local do apartamento de Legrand onde podemos, em uma única tomada, ver a sua esposa abrindo o armário em um quarto e o protagonista pintando um quadro em outro), “travelings” e “deep focus” (esse último é pouco utilizado, mas ainda assim merece muito destaque), como também ao conferir à trama toda a sensibilidade a qual a mesma necessita para funcionar corretamente (em uma determinada tomada, Renoir balança a câmera com ímpeto enquanto filma Dedé e Lulu dançando uma valsa, para que assim possa mostrar toda a fúria pela qual o primeiro estava passando).
“A Cadela” é, em suma, uma pequena grande obra-prima de Renoir. Uma mostra do majestoso trabalho que o cineasta viria a realizar ao longo dos anos 1.930.

Avaliação Final: 8,8 na escala de 10,0.

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Um Dia no Campo (Une Partie de Campagne, Drama, 1.936, França, Jean Renoir) – ***** de *****

“Um Dia no Campo” é considerada por muitos a obra-prima inacabada de Jean Renoir. Concordo com cada palavra. Não seria exagero afirmar que uma das maiores tragédias da história do Cinema foi a incapacidade do cineasta francês mais importante da década de 1.930 concluir definitivamente esta sua magistral ode à Arte Impressionista. Arte Impressionista? Sim, Arte Impressionista.
O cineasta realiza aqui uma homenagem a vários pintores que seguiam este movimento artístico, tais como: Guy de Maupassant, Claude Manet e, principalmente, seu pai, Pierre-Auguste Renoir. A mesma beleza e sensibilidade com a qual o seu progenitor registrava um grupo de pessoas almoçando e dançando em uma suntuosa festa (a propósito, considero “Le Moulin de la Galette” o mais belo quadro dentre os quais já tive a oportunidade de conferir), Jean adota aqui para filmar um grupo de pessoas fazendo um piquenique em um bosque.
O média é de uma beleza visual incrível e a união formada entre direção, fotografia e trilha-sonora transformam “Um Dia no Campo” em um dos filmes mais lindos da história do Cinema.
E não é só a formosa aparência da obra que merece destaque. O média ainda encontra tempo para fazer uma leve crítica à hipocrisia contida na vida matrimonial da alta-sociedade (o quê? Já citei isso acima? Fazer o quê, Renoir adora bater nessa tecla, ainda que se reinvente a cada filme).
“Um Dia no Campo” falha apenas pelo fato de ser um filme inacabado, uma vez que a edição se vê obrigada a dar um grande salto no tempo a fim de manter a conexidade entre o início e o fim do média.
Destaque para a ponta que o diretor faz no filme, onde assume o papel do cozinheiro Père Poulain e esbanja carisma.

Avaliação Final: 9,0 na escala de 10,0.

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Não assisti a “A Regra do Jogo” recentemente, o fiz no final do ano passado, mas decidi republicar este texto aqui justamente a fim de aumentar a minha homenagem a este impressionante cineasta que fora Jean Renoir.

A Regra do Jogo (La Règle du Jeu, Drama, 1.939, França, Jean Renoir) – ***** de *****

Jean Renoir foi, inquestionavelmente, um dos nomes que mais serviu de inspiração aos Cinemas moderno e contemporâneo. Antes mesmo de Federico Fellini estabelecer um complexo e contundente panorama sobre as nugacidades adotadas e cultivadas pela alta sociedade a fim de preencher o seu vazio existencial, Jean Renoir já havia o feito em 1.939 em “A Regra do Jogo”. Antes mesmo de Woody Allen traçar as fragilidades de relacionamentos amorosos alicerçados em um pseudo sentimento de amor, Jean Renoir já havia o feito em 1.939 em “A Regra do Jogo”. Introduzindo o espectador em sua obra-prima máxima com uma majestosa sinfonia composta por Wolfgang Amadeus Mozart, o filho de Auguste Renoir (um dos pintores impressionistas de maior renome na história da Arte) nos apresenta à filosofia adotada por ele quando o assunto em pauta é o amor: tal sentimento é rotativo e por este motivo é cada vez mais comum nos depararmos com indivíduos de todas as castas sociais que cometam adultérios.
Considerado um dos filmes cults de Arte mais importantes de todos os tempos, “A Regra do Jogo” utiliza de pano de fundo para retratar a filosofia adotada por Renoir uma suntuosa casa de campo no interior da França onde alguns aristocratas e seus respectivos empregados se unem durante um final de semana para caçar coelhos e faisões. A partir de então somos convidados a conhecer e a conviver, durante dois ou três dias, com um grupo de pessoas fúteis e materialistas. Todos os personagens do longa têm fortes desvios de caráter, porém, se vêem obrigados a maquiar isto perante à sociedade hipócrita e falsa onde vivemos. Homens traem suas esposas, mulheres traem seus maridos, todos alegam que a mentira é uma característica inerente ao ser humano, pessoas se apegam a medidas frívolas e nulas a fim de preencher o vazio existencial presente em seus insossos cotidianos e, no final… bem, no final (um dos desfechos mais imprevisíveis e surpreendentes da história do Cinema) ocorre uma tragédia, tragédia esta que nos faz lucubrar sobre até quando falsos moralismos cristãos irão imperar em nossas vidas (conforme diz um personagem do filme: “___ Corretos estão os mulçumanos que têm um harém ao seu dispor e podem dedicar o verdadeiro amor à mulher que mais ama, sem precisar desprezar as demais).

Avaliação Final: 10,0 na escala de 10,0.